quinta-feira, maio 09, 2013

para que doa




entardecer é anoitecer
utentes poucos das casas de drogas são prantos
e os cantos do fado ou do rock
enlouquecer é adoecer
doentes loucos à base de choques são tantos
e santos de fato ou de porre
entristecer é enternecer
gentes tristes são trastes, farrapos,
de trapos rasgados de tapas nas faces
mas beleza não recompensa!
é um alimento que não sobrevive se a si
desmerece
mas certeza não é descrença!
é o entendimento que o tal que se vive é o que
se conhece
mas tristeza não é doença!
é um sentimento, que ou se bem convive ou mal
se enlouquece
quero um fim aos meus - ó meus! - desgraçados níveis
de embriaguez
para que eu morra de morte sucinta
quero assim que deus - ó deus - me faça doente,
insensível e burguês
para que doa, mas que eu não sinta
para que eu voe, para que eu minta
para que eu doe minha felicidade
para que eu coe essa minha vontade
num filtro de pano, e assim reciclável,
refaça meus troços
caídos solúveis
num mar enxaguados e os olhos molhados
renasçam das águas
em tons encarnados
só insanidade, nem dor, nem doçura,
morrendo comigo, nem eu meu amigo, 
nem eu só sobrando pra mim

.

terça-feira, março 12, 2013

Selenata


Nada mais há de enlouquece
Dor
Que ter conhecido a Lua
Que ter apanhado um foguete
Dessas linhas regulares
Que a NASA oferece aos milhares
Aos passageiros de segunda classe
E, apontado pra Lua,
Ter pousado na Lua
Ter visitado a Lua
Ter vasculhado a Lua
Ter versejada a Lua
Ter conversada a Lua
E selenamente escutado, sereno, as cantigas da Lua
E incontinenti ter sido encantado com a dança da Lua
E ter abraçado, e beijado e pisado, e pisado, e pisado na Lua
E ter refeito o amor pela Lua
E ali luar
Num quarto cada vez mais crescente
Adentrado uma a uma as crateras: Regnault, Barbier, Olivier
Entrado em cada um de seus mares: Tranquillitatis, Humorum, Crisium
Maria lunare nostra, e o lacus, e o sinus, o palus no todo oceanus
E ter visto o lado escuro da Lua
E ter visto o lado oculto da Lua
E assim mesmo pisado, e pisado, e pisado na Lua
Fervor derradeiro de vil visitante amador.
...
E então,
Passagem de volta na mão,
Retornar à Terra
E pra sempre subver a Lua
La uivando febril
De um quarto cada vez mais minguante
Subvê-lua como astro, um desastre, um descarte
Um decalque branco-apagado do negro-espesso do céu
Uma esfera, se cheia, ou um sorriso, se meia
Ou só nada, se nova, de prata ou de leite ou de luz
Um astro soltiço, suspenso, inefável
Inescrutavelmente enlouquece
Dor.
.

quinta-feira, fevereiro 14, 2013

são salvador



talvez a única vera coisa

que me salve hoje dessa loucura

seja um modelo triste de eu mesmo

...

não! nunca esse eu que é desejoso

nunca! nunca esse eu que é voraz

não! não esse hoje eu que é criança

...

(um eu que brinca, que ri, que goza

um eu que pede, que quer, que chora

um eu que canta, que toca e dança)

...

o eu a ser meu salvador é:

distante e grave, pausado e surdo

é um eu de nada, é um outro mundo



.

quarta-feira, novembro 07, 2012

coisa qual quero (de beto e caetano vianna)



quase o pensamento que me ganha
de penso em penso
de transe em transe
quedo-me arranhando uns desenganos
dou trela à toa
de vez em quando
- surto!
mudo de rumo pra lá da manhã
e lá, e lá, e lá, e lá, e
sem medo, sem medo, sem me... hem?
durmo um barulho da cor do sol
segredo, o segredo, é fazer bem
morrer, feliz, comigo e é...
o gesto é tudo, é tudo, é tu... quase
quase o pensamento que me ganha
.

segunda-feira, outubro 15, 2012

here somes the sol



a noite chega e o gelo corta
e a noite dura e o sangue gela
a noite prolonga a dor fria
a noite, noite, o frio da noite

o sol desponta e corta o gelo
e o sol é cedo e esquenta o sangue
quente o medo que o sol se vá
o sol, sol, o medo do sol

o ciclo vivo quer o amor
pro triste e o prazer receber
o frio e o quente passarão
pro sol se pôr e a noite vir

outro sol e de noite outra vez
manhã de domingo do amar

.

quinta-feira, outubro 04, 2012

reparação


é noite. a boca seca bebe d’água louca. o gosto amargo cospe o trago curto. miradas turvas trocam o entra e o sai. metade olham, o outro meio, não. é dia. a mão resfria à garra do amor fogo. o toque em ouro faz-se tudo engano.  miradas dúbias dizem que o sol sai. metade cegas da terrível luz. é tarde. sorrir no escuro azulbrilhar da noite. chorar no claro enrubescer da aurora. ajuntar bocas, afagar as mãos. é um antes de ontem, é um era sem fim

.

terça-feira, setembro 25, 2012

beaguá


ah! ê, my cidade molhada
hum! ô, liquidade natal
habito-me boiando em ti
por em minha bela horizontal

oh! lonjura de ruas rios
ay! secura de barros lejos
retraz minha cidade aqui, fera
refaz volitivos meus erros

inunda imunda os pensamentos
que já não mais posso pensar
no mar, no mar, no mar, no mar
la mar, la mar, la mar, la mar

.

domingo, setembro 16, 2012

paixão e amor


paixão é como é a ira
loucura curta duração
se alonga, e vira, a pira
ção... são... ção

paixão é de momento
se ardia, arde e ardeu
paixão é esse momento
porentre o meu e o seu

amor é que é pra sempre
se arde, ardeu, ardia
amor é o ser pra frente
bão nosso a cada dia

meu coração tem um pedaço
com o justo formato de ocê
meu coração tem um espaço
conforme estar vago procê

tira pedaço a paixão
e sobra um buraco no meio
preenche o espaço o amor
de ateu, agora, eu creio

paixão é pra muitos
o amor é pra poucos
o amor quer nós juntos
paixão quer nós loucos

paixão faz-me descer
ao inferno e à dor de dar
o amor me faz crescer
sem ver-te e a te esperar

.

terça-feira, setembro 11, 2012

Tempura


Um segundo, dois,
dois segundos, três.
Quatro segundos.
E um.

Um minuto, dois,
dois minutos, três.
Quatro minutos.
E um.

Uma hora, duas,
duas horas, três.
São quatro horas.
E uma.

Passa um dia, dois,
São dois dias, três.
Quatro são os dias.
E um.

Passa um mês, dois,
Dois meses, três.
Quatro são os meses.
E um.

Passa um ano, dois,
são três anos, quatro,
Quarenta anos.
E.
Hum.
.

sábado, setembro 08, 2012

Ô dó


Sei o seu. sei.
meio meu.
may I?
tenho o teu.  tá?
feio fiz. full
time?

Quanto quarrel não sei
como queimei no mei
chame chuva e o chapéu
shall
I?

Já joguei, já girei, já gerou
Já juntei
e já?

Por que partes perfeitamente plena em pé?
será se sou eu sonhando ou se é só o seu que é
sou só?
seja eu só?

Então entre e antes durante e cante atroz
cantigas antigas do front de anti-nós
e então eu farei pra sempre em vós
um tanto quanto – sem voz
um tanto menos – pior
o quanto eu tento – ser nós
eu fora e ocê dentro
e é.
ou não.
ô-dó.

.

quinta-feira, setembro 06, 2012

Modais de quatro a quatro



Querer viver,
Podendo amar,
Eu devo a ti.

Quero a ti amar?
Devia a ti ser,
Mas não posso a ti.

Devo viver o amor?
Eu quero o amor viver,
Só não pode esse amor.

Eu posso viver sem ti?
Não quero viver sem ti,
Mas devo sem ti viver.

Mas devo viver sem te amar?
Eu quero viver sem te amar.
Viver sem te amar eu não posso.

Viver sem te amar eu não posso?
Se quero viver sem te amar,
Não devo viver sem te amar.

Eu posso viver sem ti?
Não quero viver sem ti,
Mas devo sem ti viver.

Devo viver o amor?
Eu quero o amor viver,
Só não pode esse amor.

Quero a ti amar?
Devia a ti ser,
Só não posso a ti.

Querer viver,
Podendo amar,
Eu devo a ti.

.

sexta-feira, agosto 31, 2012

reamaria





como eu não sei rezar
vou ficar ao meu lado
eu cuidando de mim
sentado ao meu lado de deus

como eu não sei rezar
vou ficar ao seu lado
só: pensando em você
cercado de sonhos ateus

bom amar de com força
força de amar de leve
até que o amar me leve
pro objeto direto  do amor

bem amado de novo
renovadamação
até que o tao reúna
pro bem no meio do amor

.

segunda-feira, agosto 27, 2012

Outros anjos


“Eu quero” num é frase, querer é língua morta
Não se quer só quase, quase querer não importa
Quase pra tudo um anjo teu
Não é pra ti nenhum arranjo

Dizes tu douta e direito
Com a mesma língua de outrora
Que o fazer é o ser correto
Que o dizer é o ver pra crer

Queres querer ser feliz
Ao meio do curso mudar
O voo do anjo que quis

E quando o doce da amora
Torna azedo o teu querer

E quando o vento de agora
Sopra contra o meu fazer

Tu fazes com outros anjos
O que o meu dizer não fez


.

quarta-feira, agosto 22, 2012

adora


a dor tem vida própria,
não faz parte da gente:
a dor é uma coisa, a gente é outra.
a dor tem luz própria,
não faz parte da manhã:
a dor é uma coisa, a manhã é outra.
a dor é inconformista,
não tem modos nem forma:
a dor é uma coisa, a forma é outra.
a dor é escapista,
não tem como a prender:
ou bem se dói,
ou bem, se der.
a dor é independente,
não se doma ou se sente:
a dor é uma coisa
e essa coisa é a outra.
a dor é involuntariosa,
não adora a ninguém:
a dor não sabe, a dor não quer,
a dor é essa mesma mulher.
.

quinta-feira, agosto 02, 2012

Genetanatologia


O universo evadiu-se a si mesmo
de matérias trevas,
de luz e de chão.
Caos, Gaia, Eros, Éter e Nix:
de que deuses são feitos meus tiques?
Quarques up, strange, bottom and down:
que sabores compõe o meu mix?
A vida surgiu aqui uma vez,
ou duas, ou três,
ou mais de um milhão.
Resta dessas vidas só uma filha,
toda vida então.
Os extraterrestres que chegam,
sedentos à Terra,
não se sabe se são amigos,
ou senão.
O amor, quando o amor acaba,
é invasão.
Já o inverso,
pois não.

quarta-feira, julho 25, 2012

Reinata


Não há nada como as asas
Não há asas
Não há jeito de o ciúme, como as asas
Suspenderem a nós todos
Dessas bases, e deixarem
Nós à míngua, como um nada,
E elevarem, às mais altas
Dores nossas
Repetirem o que é os casos mais sensíveis
E vulgares
E tenazes
E quase os lugares que aprazem ficarem
Em nós.

.

sábado, julho 14, 2012

Céu pretos




Que é a vida convivida?
Eu ainda não provei.
Eu ainda não sei o que é ser, com outro ser,
o dou, o sobrar e o sabor.

O que é a saudade, se ela só se rola e enrola
como um canivete de mola,
de que se sente o fio frio logo a navalha é aberta,
e guardada nem fere, nem toca, nem corta?

De que vale amar o amar demais do mesmo?
De que serve a cisma, o firme, o vício?
De quantos paus dispor preciso
dos quais meu um é a encolhida fonte?  

Quantos dias preciso entregar
ao futuro que os dias por vir me deve?
Quantas noites o sorriso me há de roubar
a verdade alegre que a boca não quer
não pode
nem deve
me contar?

.

segunda-feira, julho 02, 2012

ir metismo aliciante



amanhã decidi mudar tudo

troquei de:

“nunca imagine que você mesma não é outra coisa senão o que poderia parecer a outros do que o que você fosse ou poderia ter sido não fosse senão o que você tivesse sido teria parecido a eles ser de outra maneira”

como disse a duquesa de alice,

por:

deixar-me atirar
de bruços
por sobre as paragens viadas
da mudanciolândia.

(a função ir mética da poesia pede que não se lhe interrogue um a. a poesia assim posta é deveras útil em tempos de guerra, em que a balbúrdia da mensagem decifrada nada deve à cifra original, e igualmente precisa em contextos de amantes proibidos, que tanto mais se amam escondidos quanto mais o amor desavergonhadamente é muito ou perdura)

.