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quarta-feira, janeiro 26, 2011

O sorriso do lagarto

O que digo ao longo deste texto me foi sugerido por duas cartas de leitor, publicadas no mesmo dia 18 de janeiro último, em O Tempo. Na primeira, o leitor se diz indignado com a TV Globo por conta de um final de novela eticamente incorreto. O leitor-telespectador  denuncia um “... efeito socialmente negativo, devido à força da emissora, ao mostrar a vitória do crime e do mal sobre o bem e a moral”. A segunda carta também trata de uma indignação moral manifesta: a leitora-telespectadora assiste chocada, na mesma Globo, a presidente Dilma e seus comandados esbanjando sorrisos em plena reunião ministerial (conta-nos a repórter em off) sobre as trágicas enchentes no Rio.

Desde o início gostei das duas cartas, assim lado a lado, pois elas são uma caricatura da troca de papéis entre os gêneros: o macho preocupado com o andamento da novela e a fêmea atenta ao noticiário nacional. Mas é preciso esquecer os gêneros pra atentar para a relação entre o público (qualquer público) e a televisão (qualquer divulgador massivo de entretenimento e opinião).  O telespectador 1, que como todos nós está acostumadíssimo à moral teatralizada (das tragédias de Ésquilo a Hollywood) sabe muito bem que novela é novela, que tudo é encenação. Mas se permite emocionar, e, após limpar as lágrimas, se dá conta que o teatro tem uma função social, que ali se passa uma “mensagem”, e tanto pior (daí sua indignação) se a tal mensagem não se ajusta aos melhores valores que o telespectador 1 julga reconhecer na própria sociedade.

O telespectador 2 também está acostumado à moral teatralizada. Também se emociona com o que assiste e comunga, com o telespectador 1, distinções semelhantes sobre o bem e o mal. No entanto, ao ser avisado que aquilo que assiste não é teatro, mas um relato factual das tragédias humanas, põe de lado tudo o que sabe sobre quem produziu o relato, sobre o responsável pela “mensagem” e se concentra no show em si mesmo. Dilma às gargalhadas enquanto discute a morte de centenas de pessoas. O telespectador 2 não precisa entender (e isso foi dito na matéria) que naquela reunião discutiram-se outros assuntos. Não precisa entender que imagens e sons podem e são editadas e que, naquele caso específico, imagens das risadas governamentais e a parte crucial da locução da repórter - a reunião sobre as enchentes - foram sincronizadas.

Em suma, ao contrário do “consciente” telespectador 1, apreciador e crítico das tragédias ficcionais, o telespectador 2 está magicamente encantado pelo espetáculo. Alienado, para usar uma palavra fora de moda. A indignação pela imagem do mal está ali presente, mas o mal em carne e osso continua a sorrir para o espectador, ou sorrir do espectador. E assim seguimos vivendo ao vivo essa outra criatura da ficção, o Grande Irmão vislumbrado por George Orwell e reprisado em nossas casas à noite, na telinha da Globo. Uma calamidade verdadeiramente pública.       

domingo, janeiro 02, 2011

Beatles, Assange e Ano Novo

Certos assuntos políticos são difíceis de desenroscar, pois chegam fantasiados até nós, sempre que nos falta espírito crítico ou sobra preguiça. Um meio de despolitização é a manipulação dos veículos de comunicação de massa, empurrados daqui e dali para disseminar gostos, opiniões e esperanças por nossa cultura afora. Tudo pode descer goela abaixo quando bem divulgado. Não é à toa que Vargas Llosa chamou os sertões de “fim do mundo”. Para esse sul-americano naturalizado europeu, qualquer lugar que se afasta do centro hegemônico é o fim do mundo. Dele, é claro. O Conselheiro foi tão mais sábio quanto desplugado do mundo de Vargas Llosa. Euclides da Cunha também.

Século passado, surge uma revolta contra a massificação, sob a bandeira da paz, do amor e todo o resto. O alvo era o consumismo e o anticomunismo histéricos, reforçados pela mídia no ocidente, inclusive no Brasil. Os Beatles, enlatados para consumo alienante, eram pessoas sintonizadas com a disposição rebelde de sua geração, e se posicionaram publicamente o quanto puderam (contra a guerra no Vietnã, por exemplo). Seu papel político foi espertamente distorcido, suscitando a desconfiança das esquerdas e, apesar da boa música, o apoio da indústria brega da diversão. O assassinato de Lennon, à beira das festas de fim de ano e alvorada dos anos 80, sofreu um trabalho de pasteurização da mensagem política, propagado em uníssono pela mídia: voltem pra casa que o sonho acabou. Essa contradição beatlemaníaca, qualidade política e estética vendida como latas de salsicha, era a tônica da contracultura versão anos 60, pois os revoltosos eram filhos adotivos (nem tão diferentes assim) do sistema contra o qual tentaram lutar.

E eis que renasce a oposição à politica manipuladora em massa. Agora, são os meios de comunicação que justificam fins mais promissores. Do uso restrito até o dia-a-dia dos adolescentes, a internet tornou-se um comunicador de longo alcance ao alcance de todos. O que acontece com as tecnologias (e conosco) depende do uso que se faz delas, mas a configuração da tecnologia também deve ser levada em conta. Se a “rede” de TV divulga a partir de um centro, na internet os nós da rede são bilhões de usuários, que em um momento ou outro irão interferir, individual ou coletivamente, na qualidade da mensagem distribuída pelo sistema. É como as conversas que mantemos uns com os outros há milhares de anos, tecendo a rede maior que chamamos de cultura.

Sim, há espaço para a hegemonia, para manipulação de mecanismos de busca e outros truques à disposição do poder instituído. Mas isso faz parte do jogo, mesmo na conversa interpessoal. O que muda é a força de propagação, que a comunicação distribuída em rede, confere a qualquer um: não apenas a governos, grupos econômicos e veículos de comunicação mas a mim, a você ou a Julian Assange. Estamos voltando aos tempos em que fazíamos, todos, a cultura. 

Publicado em O Tempo, 31/12/10

sexta-feira, novembro 26, 2010

Quando o amor acaba: o natural e o desumano no humano

O belo-horizontino Paulo Mendes Campos (hoje nome de pracinha carioca junto à rua Humberto de Campos, no Leblon) escreveu uma bela crônica lírica sobre o amor: "O amor acaba". Mas o Paulo, sendo o Paulo, cheio de ternura, mas moleque, irrequieto, não ficaria satisfeito em louvar o amor piegas, ou chorar o amor perdido. O texto instiga leitora e leitor a percorrerem situações e lugares em que o amor desaparece, mas também ressurge, muda de jeito, de nome, muda até de amor. Diz o final da crônica-poema: "por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba".

Mas que amor é esse, tão disposto a acabar? Amor não é para sempre (ao menos enquanto dure, como ensina outro poeta)? Penso que, nesse poema, amor é algo mais fundamental que o amor romântico (ou mesmo parental) que tanto valorizamos, até o ponto de banalização, nos libretos de ópera, nas novelas e nos bailões sertanejos. Essa nossa mania de tornar o amor sublime, cheio de mistérios, dificulta aceitar que amar é mais corriqueiro (e, por isso, mais importante) para nós, humanos, assim como, acredito, para outros seres vivos. Toda criança cresce cuidada por um membro mais velho do grupo. Cuidar da criança acende o amor do adulto e joga a criança em um mundo em que é natural ser amada e, daí, amar. Somos assim, e ficamos doentes se não amamos.

As manifestações de preconceito ativista, de pregação política do não-amor a alguns grupos da sociedade, nos ensinam a ficar desnecessariamente doentes. As últimas eleições foram pródigas nessa matéria. Ódio aos pobres, analfabetos, índios, negros, a grave questão de saúde pública - o aborto - rebaixada a disputa de rancores morais.

Eleitores descontentes com as urnas demonizaram os nordestinos, imaginando um Brasil dividido entre uma atrasada e iletrada zona vermelha ao Norte, e uma próspera e ilustrada zona azul ao Sul. Os números desmentem essa bobagem, mas, mesmo se fosse verdade, que doença é essa que nos faz desamar ativamente quem vive ou pensa diferente de nós? Sempre há um exemplo que supera a mais desvairada imaginação. A Universidade Mackenzie, de São Paulo, quer agora ter o direito de "ser homofóbica". Entendido? A instituição, responsável pela educação de sei lá quantos mancebos, quer não apenas desamar os homossexuais (que isso é direito de qualquer um), mas pregar o desamor, um desamar militante, digamos. Tal como o adulto, a escola tem um papel cuidador em relação às crianças e jovens. Aqui, só consigo ver doença e, o que é pior, doença ensinada.

Se a ciência ajuda numa hora dessas, cito o biólogo chileno Humberto Maturana, que explica o amor como uma emoção fundadora do domínio social. Ele diz: "O amor é a emoção que constitui o domínio de condutas em que se dá a operacionalidade da aceitação do outro como legítimo outro na convivência, e é esse modo de convivência que conotamos quando falamos do social". Não é? Acho até que o amor romântico - que cultivam entre si homem e mulher, ou, como não sabe a universidade paulistana, outras combinações de gênero - é alma gêmea do amar como fundamento do social. Mesmo quando o amor acaba. Eu mesmo vivo neste momento uma desilusão amorosa das mais perturbadoras em minha vida, e isso, do amor acabar, não me turva o desejo de amar. Pois nós, humanos (e outros seres vivos, acredito), somos assim. Naturalmente aptos para amar e acabar de amar, a cada minuto.


Publicado em O Tempo, 20/11/10 - Ilustração: Duke

segunda-feira, junho 14, 2010

O índio de mentira


Uma versão do famoso ato do apóstolo são Tomé (ver e então crer) tem sido praticada com entusiasmo cada vez maior pela grande mídia e seus espectadores. Nessa versão, o ato de ver (ou ler) exige a imediata crença no visto ou no lido. O curioso é que, se reprovamos em são Tomé a falta de fé, o pecado da nova versão é o excesso. Ou a falta de visão crítica. Mire-se no exemplo da revista semanal que atende pelo apropriado nome de Veja. A revista atingiu o cúmulo do neo-sãotomeísmo em sua matéria especial “A farra da antropologia oportunista” (edição 2163, de 05/05/2010). Não custa ver com os próprios olhos um trecho no início da matéria que, creia, diz assim: “Áreas de preservação ecológica, reservas indígenas e supostos antigos quilombos abarcam, hoje, 77,6% da extensão do Brasil. Se a conta incluir também os assentamentos de reforma agrária, as cidades, os portos, as estradas e outras obras de infraestrutura, o total alcança 90,6% do território nacional.”.

O texto é indubitável. Apresenta o fato assombroso, embrulhado em precisos percentuais, de que índios, quilombolas e camponeses (que pensávamos ser a porção marginalizada do Brasil), somados à cobertura de mata virgem cada vez mais reduzida (não me pergunte como obras de infraestrutura entram na conta), tomaram conta do país, numa épica revolução silenciosa. O que sabemos sobre 500 anos de massacres, subjugações e humilhações dos índios no Brasil é pura ilusão. Devemos crer que os verdadeiros brasileiros estão acuados e quase expulsos pela indiada ressurgida das cinzas. 

A matéria segue dando asas a uma imaginação fértil e perversa, denunciando a “indústria da demarcação” que enche de dinheiro o bolso de antropólogos e índios. Numa redação, digamos, ousada, o texto desfila subtítulos que na minha terra seriam considerados maximamente preconcei-tuosos: “Os novos canibais”, “Macumbeiros de cocar”, “Teatrinho na praia” (índios fantasiando-se de índios!), “Made in Paraguai”, “Os carambolas” (os supostos quilombolas!). 

Não há o que comentar. O visto fala por si.

Há questões graves aí: a matéria desrespeita a boa prática jornalística (o trato com os fatos e pessoas reportados); desrespeita toda uma classe profissional (os antropólogos); e assume a defesa clara (e invisível) dos interesses mais predatórios, que avançam insaciavelmente sobre índios e terras desde que somos Brasil. Tudo isso é muito sério mas quero frisar uma quarta questão. Crer à primeira vista só é possível quando a mídia mostra o que queremos ver. Por mais miseráveis e desarmados de suas culturas pelas frentes de civilização, o índio sempre continuou sendo índio. E isso nós não aceitamos! Como os demais povos que fizeram o Brasil e, bem ou mal, se abrasileiraram, queremos que o índio faça o mesmo. Nos roemos de raiva com a insistência do índio em ser índio, e, ao ridicularizá-lo, a Veja nos dá o meio de revidarmos. Acredite quem quiser. 

 Publicado em O Tempo, 13/06/10   

sábado, maio 01, 2010

Boa correlação, má explicação


Devíamos repetir a seguinte frase como um mantra, antes do café-da-manhã: não há categorias na natureza. No entanto, categorias são cruciais para falarmos sobre essa natureza, ou, como disse um filósofo austríaco de nome impronunciável, “do que se não pode falar, é melhor calar-se”. Aprendemos muito cedo significados particulares de “mulher” e “homem”, e vivemos a vida às voltas com essas distinções. É a partir dessas categorias que negociamos e modificamos seus significados. Ainda que tal negociação faça parte do dia-a-dia, falar de categorias como construção social continua irritando muita gente, como se isso fizesse toda e qualquer diferença entre “mulher” e “homem” desmanchar no ar. Não faz, eu garanto (tenho duas filhas, e a minha namorada, até onde eu saiba, é uma fêmea legítima).

Pelo que entendo de nossa biologia, e, por outro lado, da história da sociedade industrial, a mulher sempre esteve no mercado de trabalho. Uma regularidade do modo de vida humano é o investimento de ambos os progenitores na sobrevida da prole, e, para além da família, a participação de todos os membros da comunidade na sobrevida do grupo. Isso nunca quis dizer que uma classe de membros (os de ancas largas) tem de ficar em casa fazendo a janta, e a outra (de barbas longas), sair pra caçar ou fazer seja lá o que for. Ao falarmos na correlação entre “consumo”, “mercado de trabalho” e “mulher”, não há dúvida de que cada categoria dessas só faz sentido no contexto das atuais relações econômicas e de outras facetas das relações humanas, como a construção da noção de “outro”.

Tanto os menininhos quanto as menininhas de nossa sociedade tendem a construir a mulher como um “outro”. Um exemplo batido, mas que merece ser repisado pela clareza, são os hiper-consumidos filmes Disney. Eles nos ensinam a viver as relações de consumo em sintonia com a distinção, não só da mulher, mas de “árabes”, “índios” e “latinos”, como alteridades, seres diferentões, de idiotizados a malévolos. Não é preciso ser mulher para sofrer esse processo de estranhamento com algo que, pelas categorias aprendidas, deveríamos nos identificar. Nós, brasileiros, vivemos isso em O Rei Leão. Além do estabelecimento do masculino como a única fonte concedida de poder, ali os nobres leões rugem com acento britânico, enquanto as depravadas hienas cacarejam com o sotaque suburbano de negros e latinos (idéia que roubei de Henry Giroux). Quem acha que a reprodução desse modelo em nada afeta o modo de nossas crianças construírem suas categorias, deve ter assistido, como eu mesmo, a filmes Disney demais!

Dá-se um processo semelhante ao discutirmos o impacto da “mulher trabalhando fora” nas relações familiares, e então inferir - como é objeto deste debate - um papel causal da correlação observada entre a inserção econômica da mulher e um “consumismo”. Tem algo errado aí. Consumismo - a aquisição de bens em escala maior que os ditames da subsistência - é uma demanda dos donos da produção, ávidos por desovar seus artigos a qualquer custo, desde que não seja o próprio. Inicialmente, “mulher trabalhando fora” (insisto em colocar isso entre aspas: pensem nos arrozais do Vietnam!) é uma necessidade de recrutamento de mão-de-obra. Barata, é claro, pois esse recrutamento é feito diretamente em uma sociedade patriarcal que configura - assim nos ensinam Simba e Nala - a mulher como cidadão de segunda classe. Em um segundo momento, não passou despercebido que esse novo trabalhador é também consumidor, com necessidades próprias e específicas, uma diversidade sempre bem-vinda no perspicaz mundo dos negócios.

De onde vem a idéia da “mulher, a consumista”? Não de um histórico poder econômico, pois, como todos sabemos (e a maioria dos patrões, além de saber, pratica), mulher ganha menos, nada mais sendo variável. Para entender, passamos dos leões à loiríssima Barbie. Ao comprar uma Barbie, a menininha leva de brinde (dessa vez roubei a idéia de Shirley Steinberg e Bernadete Mourão): a) um modelo de beleza; b) um modelo de consumo adequado ao feminino (futilidade e alienação); e c), o mais importante, a cultura da não-produção e da submissão. Brinquei de Falcon quando garoto, com o mesmíssimo resultado ideológico do não-brincar-de-Barbie: homens fazem, mulheres consomem. É notável como isso é contrário à experiência da maioria de nós, homens, de mulheres trabalhando duro à nossa volta, a vida inteira!

No mínimo, a categoria “mulher, a consumista” é resultado da sociedade patriarcal de consumo. No máximo, o caminho causal inverso é uma boa correlação, dificilmente uma explicação, e de modo algum uma boa explicação.

* Publicado em O Tempo, 15/01/06, no debate: “A inserção da mulher no mercado de trabalho está relacionada ao aumento do consumismo?”

quarta-feira, abril 14, 2010

LANÇAMENTO: A LINGUAGEM DOS ANIMAIS...


Lançamento do livro A linguagem dos animais & outros escritos. Quinta, 29 de abril às 19 horas, na Quixote Livraria e Café. O livro reúne 40 artigos de Beto Vianna publicados nos jornais O Tempo e O Cometa Itabirano entre agosto de 2002 e novembro de 2009, um com a participação de Alexandre Pimentel. Ilustrações de Tá Morelo e prefácio de Mario Drumond.

BAIXE o convite AQUI

Informações: www.biolinguagem.com/livros.html

Ficha
título: A linguagem dos animais e outros escritos
autor: Beto Vianna
ilustração: Tá Morelo
editora: Mazza Edições
ano: 2010
no. páginas: 184 pp
preço no lançamento: R$25

 

segunda-feira, março 22, 2010

Vida de cachorro: clones e indivíduos


Meu melhor amigo foi Zorro, um cachorro preto da raça dachshund. Como quase todos do seu tipo, Zorro tinha aquela carinha mascarada, contrastando o rosto heróico com pernas ridiculamente curtas. E como aconteceu com várias raças de cães ao longo dos seus 15 mil anos de convivência com os humanos, o dachshund surgiu com um propósito: esgueirar-se, com sua forma de salsicha, pela toca estreita do animal caçado, que bem podia ser uma raposa - daí “zorro”, na nossa irmã língua espanhola.

Além da conformação física, dizemos que também o comportamento canino segue prescrições de raça. Há uma demanda social contra o “uso” de pitbulls, rotweillers e outras feras, do mesmo modo que se proíbe o porte de armas e as pipas com cerol. Mas a consciência popular tem argumentos contra o determinismo. Assim como não falamos de diferenças raciais humanas (ao menos publicamente, e em tempos de correção política), criadores de cães lembram-nos que a conduta do cachorro reflete as vicissitudes de seu adestramento, e não o imperativo genético. Ou seja, a relação do homem com o melhor amigo do homem é mais um capítulo dessa antiga novela, o debate entre natureza e cultura. 


No dia 4 de agosto de 2005, a novela canina ganhou contornos de minissérie, da história da linhagem ao episódio de uma só geração. Cientistas coreanos anunciaram na revista Nature o primeiro cachorro clonado, cujo nome é uma jóia de adequação e bom-humor: “Snuppy”, acrônimo de Seoul National University Puppy (cãozinho, em inglês). A partir do material genético de um galgo afegão, o Snuppy embrionário foi implantado em uma cadela da raça labrador. O filhote é cara e focinho da matriz genética, e não lembra nem de longe sua nutriz materna. Que lições podemos tirar dessas semelhanças e diferenças? Infelizmente quase nenhuma, se o que estamos querendo é saber antecipadamente o final da novela. 


Espero que um parágrafo explicativo não desanime leigos nem irrite especialistas. Clonagem é a fusão do núcleo de uma célula somática (da pele, por exemplo) com uma célula-ovo cujo núcleo foi removido, e sua implantação em um organismo receptor, a “mãe de aluguel”. Como o DNA está no núcleo, dizemos que a informação genética vem do doador, e o papel do ovo anucleado ou do receptor seria secundário. Ainda que essa interpretação esteja correta (e não está), ela reflete um dos maiores preconceitos do pensamento ocidental desde Aristóteles: que a mãe é apenas o repositório da verdadeira chama vital, e, a tal chama, uma prerrogativa masculina. Ao enfatizar a contribuição igual de ambos os genitores em organismos de reprodução sexuada, a genética desarmou esse chauvinismo, mas reteve uma de suas premissas: o DNA contém as instruções de montagem e o resto do maquinário segue as instruções. Como um clone tem o mesmo DNA do indivíduo doador, deveríamos esperar que o organismo resultante fosse uma cópia idêntica. Mas é isso mesmo o que acontece?


O problema é que a biologia de qualquer organismo, desde as mais elementares interações dentro da célula até a construção da personalidade (ou caninidade), é realizada a cada momento no percurso do desenvolvimento. Elefantezinhos continuam parecendo-se com elefantes, e elefantes não nascem de formigas, mas a história biológica de cada elefante e de cada formiga individual é única. Um cão “naturalmente mau” pode continuar a ser chamado assim (e colocado, junto com seu dono, em uma coleira), sem que isso implique determinação genética ou que sua condição seja imutável. Até defeitos genéticos são reversíveis, como sabe todo mundo que usa óculos, e problemas de educação podem ser persistentes, como tem demonstrado uma parte de nossa classe política e empresarial.

Snuppy não foi o primeiro mamífero clonado. A lista inclui ratos, cavalos, coelhos, o segundo melhor amigo do homem - o gato - e a pioneira ovelha Dolly. Dolly, a rigor, nem pode ser chamada de clone. É uma “quimera”, pois recebeu material genético tanto do doador quanto da célula-ovo (sim, também há DNA fora do núcleo). Quanto ao gato, a imprensa científica não escondeu sua surpresa ao descobrir que o clone possuía um padrão de pelagem distinto de seu doador genético. Mas isso só deve nos surpreender se continuarmos a ver o organismo como o resultado de instruções escritas previamente a ferro e fogo no genoma. Ao compararmos a história individual de Snuppy com a de outros organismos clonados, vemos que as técnicas precisam ser diferentes e os resultados também não são iguais. Isso porque tanto as linhagens (as ovelhas, os cães), quantos os indivíduos (Dolly, Snuppy), exprimem uma tensão permanente na história de todo objeto vivo: a tensão entre a conservação e a mudança. Sem a conservação, não podemos sequer falar de linhagens históricas. Sem a variação, não ficaríamos tão maravilhados com as regularidades observadas, e os cientistas teriam bem menos o que fazer. Não há teoria científica possível sem um mundo de irregularidades desconcertantes.


publicado em O Tempo, 19/08/05

terça-feira, fevereiro 09, 2010

Pobre Darwin!

Charles Darwin deu origem a uma reviravolta na história intelectual, e isso não tem a ver com a existência de Deus ou a origem do homem. É algo mais fascinante: a aceitação, pela comunidade humana (especialmente os cientistas), do fenômeno da evolução, ou seja, a história da diversificação dos seres vivos na Terra. Darwin, além disso, propôs uma teoria, a seleção natural, para explicar a evolução. É isso o que a ciência faz: propõe mecanismos explicativos para fenômenos aceitos pelos cientistas que, postos para funcionar, irão gerar o tal fenômeno. Se você aceita as coerências operacionais da seleção natural, ela irá explicar o fenômeno da evolução. Darwin foi impecável ao propor sua teoria. Não apenas aceitamos a evolução, mas o modo engenhoso e generoso de Darwin tratá-la mudou a atitude dos cientistas e de todos nós.

E o que a evolução, por um lado, e as teorias científicas, de outro, têm que ver com ateísmo, agnosticismo ou crenças religiosas? Essa é uma discussão não só inútil, mas enganosa. Ela confunde as pessoas ao confundir domínios explicativos. Ateísmo ou crença são posicionamentos humanos em relação à espiritualidade, e não elementos de teorias científicas. Se o fenômeno da evolução implica que repolhos e seres humanos descendem de outros seres, isso faz parte do fenômeno tal como descrito pelos cientistas, sem fazer referência a elementos estranhos ao fenômeno. Isso não quer dizer que a teoria é “agnóstica” sobre se uma divindade criou isso ou aquilo, pois, nesse caso, o cientista estaria dizendo que há algum aspecto do fenômeno que a teoria não pode explicar, e o objetivo das teorias é explicar o fenômeno! Quando um cientista encontra um aspecto do fenômeno que a teoria não explica mais, ele propõe outro mecanismo, muda de teoria. Assim fez Copérnico depois de Ptolomeu, Einstein depois de Newton.

  Darwin na igreja... em PhotoshopContest.com

Darwin ainda não foi totalmente digerido por nós, e duas barreiras nos impedem de saborear o naturalista inglês. A primeira é o dogmatismo de alguns cientistas, que transformou o legado darwiniano em explicações reducionistas da evolução. Ainda hoje, estudantes repetem nas aulas de biologia, sem nunca ter lido Darwin, que a “competição” causa a diversificação dos seres vivos. Como se organismos (ou genes) tratassem de competir por alguma coisa! A outra barreira é a absurda oposição entre darwinismo e religião. Alguns cientistas põem lenha nessa fogueira, dizendo-se ateus (o que é legítimo) e vinculando seu ateísmo ao darwinismo (o que é um contra-senso). Do outro lado dessa moeda, pessoas mal-intencionadas (pois seu objetivo é político, e não acadêmico) ocupam espaço na mídia mundial com o “criacionismo científico” e a “teoria do design inteligente”. Nem vale a pena mostrar a incoerência de chamar essas bobagens de “científico” ou de “teoria”. Jesus disse: “a César o que é de César”. Pois que César fique em Roma, e deixe nós, gauleses, em paz.

Publicado em O Tempo, 08/09/2009

sábado, janeiro 30, 2010

Grandes palavras


Palavrões em livros didáticos. Uma mistura curiosa, pois se nada é mais didático que um palavrão, seu nicho ecológico não pode ser o ensino formal. Ensinado às crianças por sisudos educadores, o palavrão deixa de ser palavrão, vira palavra. Seu encanto é a saliência, nascida do não-dizer. A atração das crianças pelas palavras feias vem daí, elas aprendem que tais palavras são proibidas, e por isso mais encantadoras que as outras. Sabiamente, as religiões fazem o mesmo: os termos divinos tornam-se impronunciáveis (não diga Seu nome em vão) e, portanto, mais maravilhosos.

Na conservadora Lisboa dos anos 70, lembro-me de como meus coleguinhas e eu nos deliciávamos com palavras proscritas. Já fui publicamente humilhado pela professora (de quem, aliás, morro de saudades) por conta de um palavrão. Em sociedades moralmente agrárias e católicas como a brasileira e a portuguesa, palavrão é o que a criança não diz na frente dos pais, dos professores, da autoridade. É o que se diz secretamente, só pro melhor amigo, e mesmo assim de noite, baixinho, debaixo das cobertas. Novamente por essa moralidade agrária, o palavrão também é associado à gente pobre: é da boca do vulgo (na senzala, na cozinha) que saem vulgaridades, embora, pela histórica associação da classe senhorial com as modas da metrópole, seja no salão requintado que as baixezas da fala se misturam às baixelas de prata.

Nas cidades cosmopolitas, o palavrão perde a saliência mágica e mistura-se às palavras mundanas. No Rio e em Londres, por exemplo, as duas palavras mais execradas nas respectivas línguas foram incorporadas ao falar cotidiano e viraram um coringa lingüístico, como o “pá” português, o “bah” gaúcho ou o “uai” mineiro. Outra, referente ao órgão masculino, enriqueceu-se urbanamente e tanto pode significar uma coisa excelente (do x), insatisfação (que x) ou surpresa (x!). Quem já leu Gregório de Mattos, mestre da flor do Lácio de 300 anos atrás, sabe o quanto isso é antigo, produtivo e literário na língua portuguesa.

Típico no pensamento ocidental é a associação entre palavrão e as desvalorizadas emoções, que devemos controlar pela racionalidade ou elevação espiritual. É o que se diz na hora da raiva. Ou do amor. Se quiser saber se uma palavra é feia, um bom teste negativo é procurá-la no jornal. Se encontrar, não é palavrão. Ao contrário de termos publicáveis que se referem à guerra, à fome, à doença e até à escatologia e ao sexo (para alguns, matérias-primas do palavrão), a má palavra não tira sua força do significado, mas do não-uso.

Oponho-me veementemente à inclusão de palavrões nos livros didáticos, pois sou um admirador desse rico vocabulário proibido, e torço por sua sobrevivência. Os moralistas que não gostam de palavras feias, por outro lado, devem fazer uma campanha para sua incorporação massiva aos livros didáticos (atualizados anualmente, claro). Seria o fim das grandes palavras.

Publicado em O Tempo, 05/11/2009