sexta-feira, outubro 28, 2011

declaração de amores

olha dentro dos meus olhos
vê o que deles dentro vive
moram anjos dentro deles
jogo infinito de espelhos

mira o que miram meus olhos 
mora onde moram meus olhos 
teus olhos, anjos bifrontes 
jogo infinito de espelhos 

fundem-se amores confusos 
ciclopicamente nus 
dois amores, um amor 
jogo infinito de espelhos

.

quinta-feira, outubro 27, 2011

luta


me é tão preciso um buraco
bem na minha cabeça
pra que ela não esqueça

vejo a mim pelo buraco
bem da minha cabeça
pra que eu não a esqueça

a matéria tão pesada
que o vão bem expele
queima, rasga, fere

o vazio é tão pesado
bem que é vã a espera
quem com ferro fere

o buraco é tão pesado
bem na minha cabeça
quero que ela esqueça

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sexta-feira, outubro 21, 2011

mens chana

meu amor do corachão
deito a mim aos cheios teus
és minha chama, chou tua china
agradecho achim aos chéus

chão nós dois no chão
chomos nós par cheiros
mente chana, corpos chãos
gracham nós inteiros

chobe icho de novo
ver teu cher em mim
nocho amor chuado é feito
chó de amendoim

pachoca mais doche
pachoca mais linda
eu chou, chabes, como tu
colchão da minha vida


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quarta-feira, outubro 12, 2011

ano tal qual dois de paus


pinto de amarela a minha
casa
comigo
dentro
como adélia quereria,
trepo escadas e andaimo,
metes a tinta decima abaixo.
annus mirabilis tal qual nós dois de
paus: 2011.
namoramos perto, em floresta
virgem, pedra, jóia:
gema.
amava a ideia de querê-la
(abundam motivos: sobram). la
miel. de animal feito. el
conejo. de animal jeito.
desejarmo-nos assume formas. pra
dentro a paixão entra. pra
fora o perigo o
tesão
enxota.

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sábado, outubro 08, 2011

como um deus meu bom

solta o fora pra dentro:
e desafora.
enfia o de dentro afora:
e desencana.

mete o que é o seu no dela:
em ela bora.
tira o que é dela e esconde:
é na viola.

mexe o corpo e deixa:
pra quem se gosta.
para como uma estátua:
cospe na encosta.

quente é o corpo de outrora:
agora é gelo.
frio é o que não se achega:
eu vou embora.

preciso o amor em tempo:
fora de hora.
não bate o sentimento:
o amor demora.

se eu quero ocê não peço:
meu quer não cora.
se ocê me quer não mede:
seu quer não chora.

toma meu corpo e usa:
é seu agora.
tomo teu corpo e gozo:
como um deus meu bom.

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terça-feira, setembro 27, 2011

aí veio o outono


antes do outono 
era de flechas famintas flechado
era deveras desesperado
era tachado três vezes de tolo
e de desembestado

até o outono
tudo saía de um jeito que é meio jogado
tudo era principalmente pra lá de pirado
tinha um pós lance lascivo
todo e qualquer babado

aí vem o outono
e quem já vive e viveu um bocado
é sorte grande a que tira ao ter sorte ao seu lado
é morte a metade da vida
é meio carinho andado

ao outono adiante
desde o outono até este instante
desanda tarde o velho insistente
descobre o passo novinho em folha
da outra cara metade

aí veio o outono
é frio só pra quem não tá acostumado
é triste só pra quem não deixa de lado 
eu e você fizemos demais
é meio carinho andado

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sábado, setembro 24, 2011

mais lenha na fogueira


pequenininho, 
pequenininho,
me sinto tanto ao
estar bem pertinho
da sua forte imensidão

balançando, eu
eu balouçando,
e você é tão firme, menina!
me dá seu apoio?
me dá sua razão?

subo nas pontas dos pés
para vê-la melhor
piso nos seus
aos seus pés
ao seu pão

valquíria, helena,
cigana e tão bela
iansã de bela morena melena
buraco na terra
abrigo no chão

me acolhe, me cobre,
me envolve em seu manto
que é tanto e tão
quente
que é mãe a sua mão

me balança, baloiça
do seu berço peninsular
tesa esse arco, solta essa flecha
três amor trespassa
o meu coração

suas mãos suadas me empapam
me chovem
mergulho na lagoinha
que ocê, pequena,
faz inundação

menina:
a palavra solta
de sua voz é firme
a energia pouca
no seu pulso brilha

menina:
a ideia mais louca
se sai da sua boca
transforma-se em guia
da transformação

menina sabida:
a enciclopédia da vida
é um versículo breve
é o tomo mais leve
de um livro seu

chinês ideograma, alfabeto cananeu
a mais completa lista
de mil e um califas
é só a serifa
da última letra do nome seu

pequenino, pequenininho.
vertigem que eu sinto
cada vez que eu monto
seu monte e vejo
a mim mesmo à beira

fico nas pontas dos pés e não te vejo
toda, inteira
que falta me faz não te ver inteira?
nenhuma. que só uma sua parte
me já é parteira.



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quinta-feira, setembro 22, 2011

cata buraco



as forças faltam, e eu desmorono
tentando catar-me aos pedaços
no chão liso
e escorregadio
dos meus quartos

o que é feito de minhas mãos
que a mim mesmo catam
se não as vejo
se são tão pedaços
quanto o resto esgarçado de mim?

e então meus olhos
pedaços como outros dois quaisquer
rolados pra longe
do corpo esfacelado
miram a mim

e custo pra entender
(olhos distantes pouco me dão a saber)
e custo pra explicar
que por mais disjunto eu
eu me tenho tão junto a você

e peno pra aceitar
que a vida assim tombando
no ir abaixo de minhas próprias inclinações
se faz:
se prende em aprender

e a vida lá embaixo
destino de que se diz ladeira
não é pouca vida
não é só besteira
não é despresente se fiz com você

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quarta-feira, setembro 21, 2011

primavera cotidiana

uma fraçãozinha antes
dos olhos meus reabrirem  
quando a morte do sono desmorre
proutro dia novinho em folha - em flor
você já surge

e é o dia seguindo alegre
com tudo de mais ou menos ruim
e de menos ou mais bom (e segue alegre)
que o dia reoferece
até o morrer do desdia

quantas vezes tentamos a calma
a calma planejada, a calma medida
a calma estudada e a pré concebida
e ver que ela revivia logo adiante
espreitando o despassar dos dias?

ah! tenho orgulho grande docê
do tamanho dum mundo grande
que é o mundo que duas pessoas
cada uma sendo uma
redondam desenrolando cada dia

com só uma insatisfaçãozinha
durmo satisfeito todo anjo dia
é que remorrem meus olhos cansados
e descansam no morrer cotinoitano
sonhando você outro dia

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sexta-feira, setembro 16, 2011

bom conselho



é preciso ser forte
pra não perder as estribeiras
quando o tempo que faz é tão suave
e o dia que passa é tão bom
que já não nos importamos mais
em perder as estribeiras

é imprescindível estar atento
para não cair do cavalo
no momento em que encanta o bailado
e o mirar a beleza é tão bom
que já pouco ou nada ligamos
em cair do cavalo

é crucial ter a cabeça no lugar
pra não machucar na queda
se a música que se ouve é mais bela
e o sabor da comida é tão bom
que alegremente descuidamos
em perder em tua a minha cabeça

se não se é forte, atento e cuidadoso
se se perde, se cai e se machuca
por fraqueza, descuido, desatenção
espreita um terrível perigo
e alegremente descuidamos
em perder em minha a tua cabeça

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domingo, setembro 11, 2011

Um e Um


é frio e quente
é claro que é escuro
é luz assombrada e é a noite espetada de estrelas luzentes
é forte e é fraco
é o cume e o buraco
é o lado de lá do de cá
é doce e azedo (e amargo ou picante o tempero é o melhor que houve e haverá)

dez em um, cem por um,
mil e uma desnoites e ainda quem manda no mundo é o amor: Um e Um

diferente e igual
ansiosa e vestal
ciumento e carnal
generosa e fatal
amoroso e animal
(toda calma é pontual, toda paz é urgente e o início, final)
temerosa e brutal

um e um é pra ser tudo isso e etcétera e tal

se o amor é barroco não é culpa da roxa e verde inconstante maré
(o amar é o que é)

um diz sim um diz não e o sempre dizer complementa um a um
um diz tudo outro nada e entre um e outro um
há o que nasce daí
há o que cresce daí
(e se não, e daí?)

se Um só fosse o deus esse encontro haveria de quê
demasiado agradecer
uma a uma minha torres de gêmeos
sucumbindo
e se desmanchando
e desemonstrando
desvirginando-se e
se manchando de graça e de amor e loucura
um dia madura, um dia pirraça
e eu acho graça (você acha graça)
e não resta senão
agradecer
o que um e um me coube - graças a todos os deuses - com você viver

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quarta-feira, agosto 31, 2011

Tudo é normal


Tudo é normal,
tudo é sempre normativo,
mal começa e acaba bem.

Ou começa bem
e acaba malentendido,
ao cabo como o meu bem.

Como nós também,
tudo também sempre é mau,
tudo bem, é sem pré-mal.

Tudo é sempre estranho,
tudo é tão diferente
tudo é sempre sem igual.

Tudo é pré sentido,
tudo sempre é sem sentido,
quando o meu bem tá mal.

Nada é diferente
se o bem nada pra frente,
nadar não me faz tão mal.

Nadadeira levantada,
tocando a vida inteira,
não troco o meu bem por nada. 

Na ladeira deixado,
rolando a vida em cheio,
eu amo o meu xodó, mais nada.

Embarco a vida toda,
a toada é renitente,
meu barco é todo a tua remada.
Meu barco é todo a tua remada.

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quinta-feira, agosto 25, 2011

a metáfora

dizer “a casa é um universo” ou “a casa é como um presente”
é no mundo dos dizeres (da linguagem, da vida e dos seres)
uma forma grega primeira, que é desse povo as verdades
helenicamente torcidas, tornadas primeiridades

nem a casa é primeiro grega, nem deles primeiro é o universo,
nem o presente é de grego e nem os dizeres são deles
o que heleniza a razão, que a faz presente e universal,
é o metafórico jogo, translado em língua do trigo ao joio

não foi à toa na vida, se a metáfora que me chamou,  
tem a ver com a casa toda, ou com a sua construção
pois no fazer a morada, tijolo e areia não importam
gente é que muda a casa, e abre na casa uma porta

tem metáfora o grego “meta”, remetendo ao sobre tudo
tem metáfora o grego “fora”, que é o levar dum canto ao outro
transporta a dor a metáfora na palavra recolhida
e muda pela palavra abrindo a casa à alegria

metáfora hoje em dia, em grego moderno e vulgar,
é transportadora de móveis que move o habitar de lugar
mudam de casa as coisas sobre rodas de caminhão
já gente muda de casa em metaforicoração

metáfora hoje em dia, em grego moderno e vulgar,
é carrinho de bagagem desses que no aeroporto
levam as coisas nas malas sobre rodas no caminho.
e a gente num é a própria bagagem quando se deixa levar?

...

(“toda casa tem sua história” é o óbvio mais ululante
mas tem uma tal que é raro ouvir dizer por aí
que a metáfora “universo” ou “presente” para a casa
é só motivo de verso prum regalo que eu recebi)


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sábado, agosto 20, 2011

espaço


me encontro (sim, me encontro) em uma sala hexagonal
deitado nu em uma meseta de pedra
mas a meseta é fria e me acorda e expulsa de um sono
que eu não sabia que vivia
posto que dormia
e a meseta é fria e me expulsa do deitar nela
estou nu
e meu corpo é o meu único espaço

levanto-me e miro ao redor
descubro em cada uma
em cada uma das seis paredes
descubro uma porta
uma porta entreaberta

está frio na sala
e meu corpo nu quer o calor que eu sei
que há
ou decerto deve haver
dentro das câmaras que as portas
decerto devem guardar

escolho uma parede ao acaso
uma porta ao acaso
ou talvez nem tanto assim ao acaso
pois a primeira porta, a primeira parede
que escolho
é exatamente a última que eu fitava
quando acabei de todas fitar

dirijo-me (sim, dirijo-me) à porta
com alegria, ou esperança, ou firme propósito
pois o que há menos a alegrar-se, a esperar,
o que haverá a me propor menos que
a sala hexagonal fria
que expulsa de nela estar
o meu corpo nu que sente frio,
o meu único e semimovente espaço?

empurro a porta com as mãos bem abertas
palmas contra a porta, palmas à porta
palmas pela porta, palmas para a porta
e abro devagar
não por medo
mas que a porta é pesada
extenuantemente pesada

...

e a porta toda se abre
miro o espetáculo ardente lá dentro
ou o que seria um espetáculo ardente lá dentro
como eu queria
e que eu não via
o que de fato vejo
é assombro
é reacordar, um dessonhar, é reparto
pois que não há espaço
naquele quarto

quisera eu (sim, quisera eu) poder dizer
como jorge luís borges diria
que aquele primeiro quarto que abri, que descobria
convidava-me a desistir da empresa, inútil demais
de abrir os demais
pois o quarto aberto seria hexagonal
e seria frio
e teria no meio uma meseta de pedra fria
e em cada uma de suas paredes
teria uma porta
tal qual aquela
que eu agora abria

mas nada disso tudo é o certo
de tudo isso, o único certo é o nada
pois não era hexagonal o quarto
não havia portas às paredes no quarto
(se é que se entende que havia paredes)
não havia meseta alguma
fria ou quente ou morna, temperatura nenhuma
o quarto simplesmente era nada
se é que era quarto
e tudo o que eu na imagem retinha
era o espetáculo baço
de que no quarto
não havia espaço

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