sábado, junho 11, 2011

de todo modo




eu quero comer o mundo todo
eu não quero comer todo mundo
eu não quero o mundo todo querendo
eu mudar de lugar todo mundo

ela não é todo mundo
ela é meu mundo todo
eu todo querer e eu tudo mudar
depende do modo de quem quer me dar.



sexta-feira, junho 10, 2011

jondo




um céu aberto
a cerveja gelada
um doce de côco
a ponte rio-niterói
um abraço
a mão
uma sexta-feira
o belo horizonte
um gelo seco
a dor
uma canção de amor
a cama
um experimento largo de doses alopáticas
a ela
nada disso é a felicidade
eu nado disso 


terça-feira, junho 07, 2011

insonho



eu estou leve, meu amor
como a pluma ou a pena ou a seda mais leve
que pode a brisa sem força levar

mas não consigo dormir

não por furacão
nem por falta de calmaria
que a calma
eu tenho
você me deu
e ninguém nesse mundo descalmaria

só não consigo dormir

porque a sua imagem
maravilhosa
de mulher
toma todo o meu pensar

a mim me gusta
quedar
a pensar
em você
de verdade
e nem sonhar.

segunda-feira, junho 06, 2011

sem silêncio




vasculhar os cantos a procurar
um risco dela
abrir o messenger
o face
e o gmail
em duzentas janelas
tentar de tudo
reforçar a barra
recarregar a página
de cada rede social
o telefone, esse coitado
eu nem olho mais pra ele
nem o olho o fixo
nem o móvel
é hora de agir:
reiniciar o lap
fazer um café
e tomá-lo,
sacar um cigarro,
e fumá-lo
e o tempo,
passá-lo,
como se tem passado
como se eu não a
tivesse
esperando
desesperado
e
não me calo 


domingo, junho 05, 2011

a fêmea ao solo


a fêmea tem mais que fazer 
do que apenas te amar
e não escutarias

a fêmea faz tudo em dobro
a te também atender
e não escutarias

e a fêmea se sai voando
terias tu asa e ouvidos
e a seguirias?

escuta então isso ao menos
que se é igual ao amor
não dói ao olvido:

e a fêmea joga um de cada vez
e 1 e 2 e 3, 4, 5, 6...
os pés, um deles de cada vez
ao solo
como quem amacia o solo
“com a dura e muscular energia”
do poeta

como quem trata o duro solo
como massa macia
de modelar

e tu te deixas modelar
e por não seres solo 
és contente

sábado, junho 04, 2011

um crime com o poema 20 de neruda




neruda devia ter uns 20 e poucos anos
um menino, portanto
quando escreveu seu poema 20
(e os primeiros 19, é certo)
dos seus 20 poemas de amor
e uma canção desesperada

desculpe-me a falta de respeito,
menino neruda
se recorto só o que me interessa
do teu poema antes inteiro 20
e
eis o crime:

Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Eu a quero, e, talvez, ela também me queira.
Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
E o verso cai na alma como na relva o orvalho.

Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
A noite estava estrelada e ela não estava comigo.
Eso es todo.
A lo lejos alguien canta. A lo lejos.
Minha alma não se contenta com tê-la perdido.

Posso escrever os versos mais tristes esta manhã.
Como para acercarla mi mirada la busca.
Mi corazón la busca, y ella no está conmigo.
De otro. Será de otro. Como antes de mis besos.

mi corazón la busca, y ella no está conmigo.


quarta-feira, junho 01, 2011

olé



eu nunca deixei por menos 
por menor o ardor que fosse
homem ou mulher nenhuma
me ombrear em meu lamento

eu não deixo ser humano
de gênero ou sexo que seja
tourear-me meus desejos
impingir-me o que quer que seja

pois sou dono do meu corpo
senhor de minhas vontades
só num ponto perco o timbre
só num canto jogo o xale

é o canto em que a morena
essa que eu amo e amo tanto
essa mulher é meu touro
meu olé é olhe ela e arde

jogo a capa na arena
deixo o touro me furar
e sangro como sangra um demônio
até o sangue se esvair
até acabar

e me prostro a morrer
para lhe mostrar
que quem morre de amor
morre pra mostrar
que morrer de amor
é melhor e é sem dor
ou é menos dor
que morrer
o amor

segunda-feira, maio 30, 2011

cordel reencantando


lampião…
meu candeeiro encantado
desencanta do lenine
tira essa calcinha preta
e veste a sunga do ednardo

lampião...
cabra da peste do ardor
que angico mais bonico
você viu lá no agreste
virado um mar de amor

maria, maria bonita
que tu fez com esse cabra?
botou um feitiço nele
amada de faca e fuzil
e diz que tudo se acaba

maria, bonita maria
serpente, bruxa e guião
morde logo esse moreno
e o que sobrar do veneno
fica de alimentação

lume de serra talhada
malhada do caiçara
antes que o encanto passe
corte nossas cabezotas
e espete na mesma vara

bonita maria, maria
encantou o lampião
num se acaba o encantamento
que ainda não nasceu volante
pra puxar meu freio de mão

.

domingo, maio 29, 2011

bebeto




eles e se é para a vida inteira
ele e se é dois de qualquer maneira
ela e se é um desejo de amar

qualquer e se é de outro jeito amigo
nenhum que é de outro jeito o perigo
todo cuidado se é vale a pena

que coisa bonita é e que sai dessa pena
qual a palavra é e a dor não condena
quantas tristezas o amor vai curar
como deixar de entender essa pena
quem faz da pena um jeito de acampar.


sábado, maio 28, 2011

os poemas morreram




os poemas morreram
os poemas acabaram
o poema, esse, último
os poemas tombaram
como continuar poemas
depois da primeira
trombada?

os poemas morreram
quando a palavra
enamorada
revê do nada nascida
nata, nata, nata, nata
tremblada

o poema morreu
quando a palavra vê
que o amor
não é

os poemas remorrem
quando a mulher
não é
mais nata

saída da via noturna
e com outro homem
combinada

ungida en santo antónio
y por otro hombre
amada.


quarta-feira, maio 25, 2011

brincadeira



vamos brincar duma coisa, vamos?
aceite se for audaz
não é brinquedo o negócio
é difícil, é foda, é trash e um
puta risco pros dois de nós

a brincadeira se chama “senhora”
a origem do nome eu nem sei
é um tipo assim de combinado
onde o cara que erra tá certo, e o que sabe
nem viaja que já acertou

a cada hora do dia, cada dia
de cada semana do mês
gata, você é a senhora
e escolhe pra mim um destino que eu
viva uma vez e não mais

cada encontro, na brincadeira
será uma odisséia inteira
de mil personagens em fila
fêmea, cafetão, o fauno e a ninfeta sem um
só elo que ligue a cadeia

o perigo é, charmosa pantera
se pra cada encontro nos traz
um desencontro no meio:
seja de fato senhora - faça de mim sempre um
nunca seu desencontrar.


que a distância não lance




entre nossa distância sequer passa
o papel da mais escassa gramatura
quase qualquer medida extravasa
o espesso da infinitesimal lonjura
o menor micrômetro mal e mal traça
o desvão que a clara vista em vão perscruta

a separação embora toque o insensível
despeja água em gretas nanométricas
e em fosso aberto um jorro desprezível
torna o suco enchendo suas arestas
o efeito acumulado beira o impossível:
proliferar canais fractais entre as florestas

do céu goteja o choro em bruta tempestade
o pesar de uma torrente forte em chão piano
estoura uma barragem toda de saudade
um lago inteiro esse pequeno duto alimentado
e sulca a saudade em muito pouco tempo
o leito nosso em catastrófico oceano.


domingo, maio 22, 2011

tradução



quando eu ficar velho, de cabelos ralos
daqui a muitos anos
você ainda vai me mandar presente
no dia dos namorados
felicitações de aniversário
e uma garrafa de vinho?

traduzo pra você essas palavras
de um roqueiro inglês
da cidade de liverpool
porque ainda que essas palavras
não sejam nascidas em minha boca
traduzem o que minha boca sente

que é amar e ser amado por você
por todos os dias do meu presente.


sexta-feira, maio 20, 2011

o que o quixote esqueceu de dizer



mas eu te amo tanto, mas tanto, mas tanto
que nem sei se esse amor tanto
é um amorzinho normal
ou um exagero desnatural

num vou falar é mais nada
senão começa a poetada
e ocê num merece um nada
se nada for genial

parei pra escrevê uns verso
só pra mostrar meu apreço
procê, amor mais gostoso
doce muié del toboso

pois se nada eu escrevesse
se nada escrito eu tivesse
eu chorava que nem criança
pois quem nada sempre alcança

.

terça-feira, maio 17, 2011

tarde de sonho e jardim




no arrabal albaicín
encontrei um palácio
mourisco por fora, por dentro e por trás

na morada alcazaba
encontrei um jardim
riscado de odores tomilho e albarraz

no jardim alhambrino
encontrei bem no meio
uma pedra perdida entre as flores de abril

sob a pedra negra
encontrei escondido
um fino tecido em carmim cachemir

sob o manto rubro
encontrei um pergaminho
coberto de letras pintadas em mel

no símbolo bruxo
encontrei o caminho
que torna à saida pro bairro albaicín

sonhei que ao invés
de haver uma pedra
e debaixo da pedra, o xale e o bilhete

sonhei que por baixo
da pedra sagrada
era o meu nome escrito em tua pele febril

.

segunda-feira, maio 16, 2011

Orvalhos na sua frente



Eu ficom vergonha de ter orvalhos na sua frente
Eu ficom vergonha de ser otários na sua frente
Eu ficom vergonha de ter ocasos na sua frente
Eu ficom vergonha de ser ousados na sua frente
Eu ficom vergonha de ser orgasmos na sua frente

A vida vem em ondas como quantums.

Eu tenho vergonha dos opiáceos à sua frente
Eu tenho vergonha dos oleados à sua frente
Eu tenho vergonha dos ordenados à sua frente
Eu tenho vergonha dos operários à sua frente
Eu tenho vergonha dos oceanos à sua frente

Você e eu não temos ideia de como é ruim ter ideias. Por isso são geniais as suas.

Eu sou vergonha se sem vergonha por sua frente
Eu sou insônia se não coloco por sua frente
Eu sou colônia se invadido por sua frente
Eu sou maconha se for tragado por sua frente
Eu sou cegonha se ordenhado por sua frente

Tudo está tão certo: vergonhosamente ir e vergonhosamente voltar

Eu sou remédio se re me dado em seu corpo quente
Eu tenho vergonha de ter vergonha (você não mente)
Você é a vergonha que eu ver ganhada me muda a gente

Só você me dirige a palavra: deixa eu só te amar.


.

domingo, maio 15, 2011

felicidadezinha




eu vi a felicidade
e ela zombou de mim

era um metro e vinte de felicidade
e ela aumentou o mim

tomei um banho de felicidade
e a ducha era tão pequena

que eu fiquei assim

o que faço agora?
quem eu amo agora?

eu vi a felicidade
e a felicidade tomou conta

deixo a poesia pra depois
prefiro falar
agora só de arroz

mortos logo ressuscitarão
e meu paladar
morre ao falar feijão

mando a poesia se mancar
prefiro andar
por sobre nós dois

ou somos já três?

as três mentirinhas logo acima
é sempre bom de falar
e quase sempre rima

o que a gente acontece é viagem que
nunca vai passar
de uma grande bobagem

tudo o que acontece com a gente
nunca vai passar

eu vi sua felicidade
com cabelos e olhos negros
e uma infância que nem se eu quisesse
nunca vai passar

to me.



.

sábado, maio 14, 2011

segunda serenata




sempre soube do monstro
só nunca soube pra que
servia o monstro
a mim nunca
nunca o monstro me serviu
e me servia entretanto

como uma luva

achava então que o monstro servia
tão somente pra afugentar
meus amigos
meus amores
e eu

e então
em um primeiro abril
conheci meu primeiro
grande amor da minha vida

e entendi que o monstro
não sou eu.

como uma luva.


.

quarta-feira, maio 11, 2011

amote s teamo




eute amo eute amo eute amo eute amo


fácil eu repetia isso
ad nauseamo infinitamante
de sulanorte a lestoeste
mas será mesmo amor?
será tudo isso honeste?
não é encosto feitiço ou peste?
façamos um teste

imagino-te agora menor
imagino-te (imagina!) burra
imagino-te bem mais nova
que a mais larva ou ova
das criaturas
a filha da filha daquela tua filha
e eute amaria amaria amaria amaria

juzgote ahora mayor
julgo-te entrevada
julgo-te em anos desequilibrada
gorda doida vaga e desdentada
como a pior da pior da cunhada
da tia maria
e eute amaria amaria amaria amaria

agora a prova final
a que a que não resistiria o mais puro casal
(se puro é o puro cinismo vestal)
e se tu não fosses quem tu proclamas?
e se em vez da tua eu fosse outras camas?
e se em vez de ti tu fosses um monstro
um alguém de distintas matéria e energia?

eute amaria amaria amaria amaria

eute amo eute amo eute amo eute amo
te digo e te posso dizer-te eute amo afinal
(mesmo se um ponto sozinho
é pequenininho e não ponto final)

passei no meu teste
que eu mesmo fiz
mas isso num é tudo
não há garantia
pois mesmo eu te amando
a mando de exu
se tu não me amas
eu tamos no cu

.

terça-feira, maio 10, 2011

toccata




todo dia espero te encontrar no outro dia
faço assim distinto de mestre caeiro
mas pela mesma razão
que é descrer da razão.

para mestre caeiro
aquilo que poderá ser amanhã
amanhã será o que é.
em mim o amanhã tão o é
que hoje me tens passado.

para mestre caeiro a realidade
é tocar o mundo.
em mim a realidade é
como me tocas tu, é
como és o mundo
quando espero te encontrar no outro dia.

.