sexta-feira, julho 26, 2013

desejo volta




passa um troço
uma coisa doida
fica um desejo
de morte

o pé firme
a mão leve
o teu gume
o meu corte

entra ano
em sai ano
desejo volta
mais forte

já não conto comigo
já não faço pedido
já não posso contar
com sorte

a vida só segue graças
a
que
te
amo
.

quinta-feira, julho 11, 2013

Um rato







Um gato
Preso no fundo de um poço
Mira um ratinho lá em cima

Que mira o gato lá embaixo
Um grito
Fere o silêncio por dentro

Muda o que a voz não alcança
Muda a vontade lá embaixo
Um rato

Queda a canção mais um pouco
Queda no hondo do pozo
Queda a beleza lá embaixo

Um prato

Quebra-se a dor em pedaços
Cobre de amorestilhaços
Cobra o juntar desses cacos
.

quinta-feira, junho 27, 2013

Água turva




Água turva, turva, turva
Aguardo-te aqui, água turva
Sobre ti uma touceira de rosas viúvas
E tu és turva, turva, água
E cai sobre ti uma pétala
De uma rosa viúva do cacho
Da touceira que tomba por sobre
A água turva, que aguarda-me aqui.

E a água permanece turva.
E returva, e returva, e returva.

Um observador observa
a touceira de rosas viúvas
que sobre a água recurva.

A água permanece turva, turva.

Que não acalma a água se a ela
vidiamos, deixando-a quieta.

Em guarda.
E quieta.

Só calma a água se em ela
nadamos por dentre o olho dela.

.

quarta-feira, maio 29, 2013

São Pedro




Não adianta fechar a janela:
essa chuva que cai aqui dentro
tá molhando tudo lá fora.
Por certo é errado chover.
Chover, chover, chover...
Sem um pingo de sentido se quer.

Sim, digo eu pra mim mesmo.
Não, dizes tu a teus botões.
E afirmamos e negamos três vezes no meio.
E mais,
ou menos,
seguimos
chovendo.

Já é tempo demais,
esse que esconde amanhãs em 50 minutos.
Passemos o tempo ruim, ruins.
Deixemos o tempo no bem-bom.
Sejamos sóis e chuvas.
Chovamos.  Nossa loucura.

.

domingo, maio 19, 2013

dente-de-leão




e quando da minha e da sua janela abertas
olhávamos
e quando do seu e do meu ouvido aber
tocamo-nos  
elas então flutuarão entre o seu pensamento e o meu
e engolimos as plumas dos dentes-de-leão
e elas fariam cócegas em nossas bocas
e cuspíamos rindo, de boca em boca
e engasgáramos
intoxicados
de bastas plumas
e onde aspirávamos odores de espaços que tão mais cheios
de cheiros são quanto mais ausentes de nós sentimo-nos
e despiremo-nos de choques
e contornávamos os toques
e atiráramos um olhar ao outro
e acertamos um tiro à roupa
e morreremos
como morreríamos
como morrêramos
como morríamos
como morrem todos aqueles
e só aqueles
que irão se encostar pela primeira vez
que irão se encontrar pela primeira vez
da minha e da sua janela abertas
.