quinta-feira, julho 11, 2013

Um rato







Um gato
Preso no fundo de um poço
Mira um ratinho lá em cima

Que mira o gato lá embaixo
Um grito
Fere o silêncio por dentro

Muda o que a voz não alcança
Muda a vontade lá embaixo
Um rato

Queda a canção mais um pouco
Queda no hondo do pozo
Queda a beleza lá embaixo

Um prato

Quebra-se a dor em pedaços
Cobre de amorestilhaços
Cobra o juntar desses cacos
.

quinta-feira, junho 27, 2013

Água turva




Água turva, turva, turva
Aguardo-te aqui, água turva
Sobre ti uma touceira de rosas viúvas
E tu és turva, turva, água
E cai sobre ti uma pétala
De uma rosa viúva do cacho
Da touceira que tomba por sobre
A água turva, que aguarda-me aqui.

E a água permanece turva.
E returva, e returva, e returva.

Um observador observa
a touceira de rosas viúvas
que sobre a água recurva.

A água permanece turva, turva.

Que não acalma a água se a ela
vidiamos, deixando-a quieta.

Em guarda.
E quieta.

Só calma a água se em ela
nadamos por dentre o olho dela.

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quarta-feira, maio 29, 2013

São Pedro




Não adianta fechar a janela:
essa chuva que cai aqui dentro
tá molhando tudo lá fora.
Por certo é errado chover.
Chover, chover, chover...
Sem um pingo de sentido se quer.

Sim, digo eu pra mim mesmo.
Não, dizes tu a teus botões.
E afirmamos e negamos três vezes no meio.
E mais,
ou menos,
seguimos
chovendo.

Já é tempo demais,
esse que esconde amanhãs em 50 minutos.
Passemos o tempo ruim, ruins.
Deixemos o tempo no bem-bom.
Sejamos sóis e chuvas.
Chovamos.  Nossa loucura.

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domingo, maio 19, 2013

dente-de-leão




e quando da minha e da sua janela abertas
olhávamos
e quando do seu e do meu ouvido aber
tocamo-nos  
elas então flutuarão entre o seu pensamento e o meu
e engolimos as plumas dos dentes-de-leão
e elas fariam cócegas em nossas bocas
e cuspíamos rindo, de boca em boca
e engasgáramos
intoxicados
de bastas plumas
e onde aspirávamos odores de espaços que tão mais cheios
de cheiros são quanto mais ausentes de nós sentimo-nos
e despiremo-nos de choques
e contornávamos os toques
e atiráramos um olhar ao outro
e acertamos um tiro à roupa
e morreremos
como morreríamos
como morrêramos
como morríamos
como morrem todos aqueles
e só aqueles
que irão se encostar pela primeira vez
que irão se encontrar pela primeira vez
da minha e da sua janela abertas
.

quinta-feira, maio 09, 2013

para que doa




entardecer é anoitecer
utentes poucos das casas de drogas são prantos
e os cantos do fado ou do rock
enlouquecer é adoecer
doentes loucos à base de choques são tantos
e santos de fato ou de porre
entristecer é enternecer
gentes tristes são trastes, farrapos,
de trapos rasgados de tapas nas faces
mas beleza não recompensa!
é um alimento que não sobrevive se a si
desmerece
mas certeza não é descrença!
é o entendimento que o tal que se vive é o que
se conhece
mas tristeza não é doença!
é um sentimento, que ou se bem convive ou mal
se enlouquece
quero um fim aos meus - ó meus! - desgraçados níveis
de embriaguez
para que eu morra de morte sucinta
quero assim que deus - ó deus - me faça doente,
insensível e burguês
para que doa, mas que eu não sinta
para que eu voe, para que eu minta
para que eu doe minha felicidade
para que eu coe essa minha vontade
num filtro de pano, e assim reciclável,
refaça meus troços
caídos solúveis
num mar enxaguados e os olhos molhados
renasçam das águas
em tons encarnados
só insanidade, nem dor, nem doçura,
morrendo comigo, nem eu meu amigo, 
nem eu só sobrando pra mim

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