domingo, maio 19, 2013

dente-de-leão




e quando da minha e da sua janela abertas
olhávamos
e quando do seu e do meu ouvido aber
tocamo-nos  
elas então flutuarão entre o seu pensamento e o meu
e engolimos as plumas dos dentes-de-leão
e elas fariam cócegas em nossas bocas
e cuspíamos rindo, de boca em boca
e engasgáramos
intoxicados
de bastas plumas
e onde aspirávamos odores de espaços que tão mais cheios
de cheiros são quanto mais ausentes de nós sentimo-nos
e despiremo-nos de choques
e contornávamos os toques
e atiráramos um olhar ao outro
e acertamos um tiro à roupa
e morreremos
como morreríamos
como morrêramos
como morríamos
como morrem todos aqueles
e só aqueles
que irão se encostar pela primeira vez
que irão se encontrar pela primeira vez
da minha e da sua janela abertas
.

quinta-feira, maio 09, 2013

para que doa




entardecer é anoitecer
utentes poucos das casas de drogas são prantos
e os cantos do fado ou do rock
enlouquecer é adoecer
doentes loucos à base de choques são tantos
e santos de fato ou de porre
entristecer é enternecer
gentes tristes são trastes, farrapos,
de trapos rasgados de tapas nas faces
mas beleza não recompensa!
é um alimento que não sobrevive se a si
desmerece
mas certeza não é descrença!
é o entendimento que o tal que se vive é o que
se conhece
mas tristeza não é doença!
é um sentimento, que ou se bem convive ou mal
se enlouquece
quero um fim aos meus - ó meus! - desgraçados níveis
de embriaguez
para que eu morra de morte sucinta
quero assim que deus - ó deus - me faça doente,
insensível e burguês
para que doa, mas que eu não sinta
para que eu voe, para que eu minta
para que eu doe minha felicidade
para que eu coe essa minha vontade
num filtro de pano, e assim reciclável,
refaça meus troços
caídos solúveis
num mar enxaguados e os olhos molhados
renasçam das águas
em tons encarnados
só insanidade, nem dor, nem doçura,
morrendo comigo, nem eu meu amigo, 
nem eu só sobrando pra mim

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terça-feira, março 12, 2013

Selenata


Nada mais há de enlouquece
Dor
Que ter conhecido a Lua
Que ter apanhado um foguete
Dessas linhas regulares
Que a NASA oferece aos milhares
Aos passageiros de segunda classe
E, apontado pra Lua,
Ter pousado na Lua
Ter visitado a Lua
Ter vasculhado a Lua
Ter versejada a Lua
Ter conversada a Lua
E selenamente escutado, sereno, as cantigas da Lua
E incontinenti ter sido encantado com a dança da Lua
E ter abraçado, e beijado e pisado, e pisado, e pisado na Lua
E ter refeito o amor pela Lua
E ali luar
Num quarto cada vez mais crescente
Adentrado uma a uma as crateras: Regnault, Barbier, Olivier
Entrado em cada um de seus mares: Tranquillitatis, Humorum, Crisium
Maria lunare nostra, e o lacus, e o sinus, o palus no todo oceanus
E ter visto o lado escuro da Lua
E ter visto o lado oculto da Lua
E assim mesmo pisado, e pisado, e pisado na Lua
Fervor derradeiro de vil visitante amador.
...
E então,
Passagem de volta na mão,
Retornar à Terra
E pra sempre subver a Lua
La uivando febril
De um quarto cada vez mais minguante
Subvê-lua como astro, um desastre, um descarte
Um decalque branco-apagado do negro-espesso do céu
Uma esfera, se cheia, ou um sorriso, se meia
Ou só nada, se nova, de prata ou de leite ou de luz
Um astro soltiço, suspenso, inefável
Inescrutavelmente enlouquece
Dor.
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quinta-feira, fevereiro 14, 2013

são salvador



talvez a única vera coisa

que me salve hoje dessa loucura

seja um modelo triste de eu mesmo

...

não! nunca esse eu que é desejoso

nunca! nunca esse eu que é voraz

não! não esse hoje eu que é criança

...

(um eu que brinca, que ri, que goza

um eu que pede, que quer, que chora

um eu que canta, que toca e dança)

...

o eu a ser meu salvador é:

distante e grave, pausado e surdo

é um eu de nada, é um outro mundo



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quarta-feira, novembro 07, 2012

coisa qual quero (de beto e caetano vianna)



quase o pensamento que me ganha
de penso em penso
de transe em transe
quedo-me arranhando uns desenganos
dou trela à toa
de vez em quando
- surto!
mudo de rumo pra lá da manhã
e lá, e lá, e lá, e lá, e
sem medo, sem medo, sem me... hem?
durmo um barulho da cor do sol
segredo, o segredo, é fazer bem
morrer, feliz, comigo e é...
o gesto é tudo, é tudo, é tu... quase
quase o pensamento que me ganha
.

segunda-feira, outubro 15, 2012

here somes the sol



a noite chega e o gelo corta
e a noite dura e o sangue gela
a noite prolonga a dor fria
a noite, noite, o frio da noite

o sol desponta e corta o gelo
e o sol é cedo e esquenta o sangue
quente o medo que o sol se vá
o sol, sol, o medo do sol

o ciclo vivo quer o amor
pro triste e o prazer receber
o frio e o quente passarão
pro sol se pôr e a noite vir

outro sol e de noite outra vez
manhã de domingo do amar

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quinta-feira, outubro 04, 2012

reparação


é noite. a boca seca bebe d’água louca. o gosto amargo cospe o trago curto. miradas turvas trocam o entra e o sai. metade olham, o outro meio, não. é dia. a mão resfria à garra do amor fogo. o toque em ouro faz-se tudo engano.  miradas dúbias dizem que o sol sai. metade cegas da terrível luz. é tarde. sorrir no escuro azulbrilhar da noite. chorar no claro enrubescer da aurora. ajuntar bocas, afagar as mãos. é um antes de ontem, é um era sem fim

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terça-feira, setembro 25, 2012

beaguá


ah! ê, my cidade molhada
hum! ô, liquidade natal
habito-me boiando em ti
por em minha bela horizontal

oh! lonjura de ruas rios
ay! secura de barros lejos
retraz minha cidade aqui, fera
refaz volitivos meus erros

inunda imunda os pensamentos
que já não mais posso pensar
no mar, no mar, no mar, no mar
la mar, la mar, la mar, la mar

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domingo, setembro 16, 2012

paixão e amor


paixão é como é a ira
loucura curta duração
se alonga, e vira, a pira
ção... são... ção

paixão é de momento
se ardia, arde e ardeu
paixão é esse momento
porentre o meu e o seu

amor é que é pra sempre
se arde, ardeu, ardia
amor é o ser pra frente
bão nosso a cada dia

meu coração tem um pedaço
com o justo formato de ocê
meu coração tem um espaço
conforme estar vago procê

tira pedaço a paixão
e sobra um buraco no meio
preenche o espaço o amor
de ateu, agora, eu creio

paixão é pra muitos
o amor é pra poucos
o amor quer nós juntos
paixão quer nós loucos

paixão faz-me descer
ao inferno e à dor de dar
o amor me faz crescer
sem ver-te e a te esperar

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terça-feira, setembro 11, 2012

Tempura


Um segundo, dois,
dois segundos, três.
Quatro segundos.
E um.

Um minuto, dois,
dois minutos, três.
Quatro minutos.
E um.

Uma hora, duas,
duas horas, três.
São quatro horas.
E uma.

Passa um dia, dois,
São dois dias, três.
Quatro são os dias.
E um.

Passa um mês, dois,
Dois meses, três.
Quatro são os meses.
E um.

Passa um ano, dois,
são três anos, quatro,
Quarenta anos.
E.
Hum.
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sábado, setembro 08, 2012

Ô dó


Sei o seu. sei.
meio meu.
may I?
tenho o teu.  tá?
feio fiz. full
time?

Quanto quarrel não sei
como queimei no mei
chame chuva e o chapéu
shall
I?

Já joguei, já girei, já gerou
Já juntei
e já?

Por que partes perfeitamente plena em pé?
será se sou eu sonhando ou se é só o seu que é
sou só?
seja eu só?

Então entre e antes durante e cante atroz
cantigas antigas do front de anti-nós
e então eu farei pra sempre em vós
um tanto quanto – sem voz
um tanto menos – pior
o quanto eu tento – ser nós
eu fora e ocê dentro
e é.
ou não.
ô-dó.

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