terça-feira, maio 08, 2012

dizer, desbravar, dizer



a floresta mais densa não resume a frustração hirsuta
que é o se meter inútil a desbravar impune a poesia
tormentoso trabalho, esquivo produto de suor ou inspirada magia
inútil esperançar se se poeta esperando que a poesia diga
do amor e a alegria, da perda, do alento e a fadiga.
no fim dos cantos, poetar nenhum desse mundo diz
poetar nenhum desse mundo termina, afinal,
em final triste ou feliz:
o dito só entorna de volta.

tirar “tristes redes a tus ojos oceánicos – diz neruda
fatigar “sin rumbo los confines" – diz borges
“de esa alta y honda biblioteca ciega” – dicen los dos.

a poesia mais densa não resume a frustração hirsuta
que é o se meter inútil a desbravar impune a floresta
tormentosa aventura, esquiva clareira de um sol a escorrer na testa
inútil avançar se se adentra a floresta esperando vencer a fadiga
de amor e de dor, e de perda e de alento e de amiga.
lá pelas tantas, esperança nenhuma desse mundo quer
floresta nenhuma desse mundo se abre, afinal,
ensolarada clareira:
o denso só adentra de volta

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sábado, abril 28, 2012

auto da barca do anjo


eu havia de ter
percebido os sinais
me torturo por ser tolo e não mais
me procuro em todo canto,
que eu tanto,
não canto há tempos
atrás

o dia é cedo pra o fim da vida
o dia cala antes do sem fim
o dia ferve de álcool e tristeza
como um poema ardido
desses poemas despidos
de casca, miolo e sentido
desses bem acebolados
esses poemas manchados
dum amor que de tanto gosto
desmancha na boca
e some o gosto
e some a boca
e some sermos
não somos mais

o sol já vai alto em minha barca do inferno
o sol já se pôs em minha barca da glória
espero ver de mãos dadas
o anjo e o diabo
no cais

a tarde chega em bafo de maio
o abril se vai como nunca antes
tivesse estado
tivera o abril me encontrado
nesse outro estado
tivera eu a sorte de um dia
não ter passado
eu havia de ter
percebido os sinais
agora é de tarde
tanto
faz

.

quinta-feira, fevereiro 16, 2012

dê xô cê


dê xô cê que ocê vai tê
dê xeu sê o que eu quisé
se jô cê do meu ladinho
vô sozinho inté nocê

qué vim cá vô ti ês perá
qué ficá eu vô ti vê
se a saudade é conselhêra
é bestêra nós pená

dê xô cê
dê xeu sê
se ju amô
se jum só

o amoré uma flô de lis
tem treis peta lá de flô
todas treis é amar ela
e a mais bela é ocê filiz

o amoré igual que o sol
ele quêma de calô
vem a sombra e ali via
cobre o dia com o lençol

veim cá flô
me xerá
dê xu sol
vim quemá

dê xô cê
me isfri ah!
dê xu fô
go acamá


.

segunda-feira, fevereiro 13, 2012

rê d’ação


o amor é substantivado:
quase que nele concorda
todo verbo conjugado.
e no entanto esse pronome
nós, assim, em nós tratados,
torna o sujeito em criança
e o objeto do desejo
rompe qualquer concordância.

o amar é verbalizado:
diz-se ao amor todo dia
se todo dia é contado.
se entretanto é dito o nome
que é o núcleo do predicado,
perde em força a oração
e desfaz-se em voz passiva
o agente do coração.

amados somos adjuntos:
no verbo ou por nossos nomes
ternos somos ajuntados.
e embora tão acessórios
a um ao outro nessa lida,
tanto aumenta o amor e agrava
o amar amados unidos,
que o amando vira palavra

gerando textos tecidos.

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quinta-feira, fevereiro 09, 2012

Maus acentos




Enche a minha piscina de ahgua sua
Enche a sua cisterna de paixaum
Deixa meu colchaum de ahgua raso
Deixa meu lenssol sem um borraum
Fecha a portaria do seu prehdio
Fecha a porta do seu barracaum
Sem voce em mim meu eu eh tehdio
Sem eu em voce eu sou mais naum
Canto uma canssaum jogada num
Canto outro qualquer do corassaum
Re pisando o desejo de amarte
Re amando o piso de a dor arte  

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quinta-feira, fevereiro 02, 2012

breve rebus


borda a vela
remo o barco
rolo a bola
banca a vida

bola um vídeo
risco um briefing
raspo a barra
busca o resto

brada um veto
rogo um basta
rasgo a bata
baça a vista

(beliscamos
vexamosos
replicantes
bobaginhas)
 
reentro à brecha
bate um vento
brinca um voo
rompo a briga

rezo a baco
bebe um vinho
brinda à vida
roubo um beijo

raspo a boca à
boca dela
bica a vara
rego a bela

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domingo, janeiro 08, 2012

mineragem desvarada

choro qual bezerro des daimado
grito do irpirando em cioamado

sãopaulos
paulossão
sãopaulos
paulossão

depaulistas
listasdepau
depaulistas
listasdepau

são paus dantes
dez pau prontos
e são paulistos

garoa de ir pra... nema
rio de minesmo, eu iria
és o bairroda liberdade
a ida, a ida que tardia


o bixiga moca solta
parada da mijadinha
setepraceando jorro
pirulitando esbarro

minas, ó minha mina
mostra as montanhas
passeio intumescido
deleite nuncatirado

belentardecer longe
triste e é redentor
alguma coisacontece
no mar que é oração

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quarta-feira, dezembro 28, 2011

Precisão



Eu não preciso mais de mim.

Anos perdido depois de
Anos pedindo depois de
Um mendigo pé frio como um
Um a mim mesmo como nunca
Aos pais meus desde sempre
Às lindas filhas minhas desde já

Ao meu amor depois
A parar hoje posso
A finalmente pedir
E nada
E posso
E peço?

Ah! não, não é vero não
Ah! não, finalizarei não
O agir a pedir
O  pedindo agindo
Agora eu amo pois
O ser amando é o amar tudo
O estar amado é o próprio amor
Amar a mim
Aos meus pais
Às minhas filhas minhas
(a elas quase quatro todas)
Ou quanto amar mais será
A ti
A ti que és tudo
A o que és amar
O que és eu

Eu sem precisar mais de mim.

Ó amada que és eu sem ter eu sem ter fim.
Ó lado ao meu lado que afronte atrás ti.
Ó rê.
.

segunda-feira, dezembro 19, 2011

conpasión

um e dois e três e é quatro e é cinco e
eu seguiria com afinco mesmo
até o fim
dos teus
afins

e é três e é seis e oito e dez e doze
e eu desposaria à soleira mesmo
de trás à
frente os
teus

e é três e é e sete oito e dez e doze
e eu burlaria a mim mesmo assim
do meio ao
sim dos
sins

.

quarta-feira, dezembro 07, 2011

artnam


da terra,
torna o girassol astro diurno
torna um deus assim
gera agora a fera a madressilva
gera o adeus fatal
da água,
molham dois anfíbios quatro vidas
molham dois de si
foge hipopótamo sob o rio
foge à falta sede
do ar,
cheira o rinoceronte esses cornos
cheira o medo ao vento
alça o pterodáctil o dedo aos céus
alça os dados seus
lança os dardos seus
ouço os cantos seus
de sirenídea bidialogando
de solanácea dibiologando
longo, longe e piano
como se ao longe o canto sumisse
como se a floresta desfolhasse
como se a folhesta deflorasse
tal qual tivesse pra sempre sido
lar hirsuto de um bestiário mítico
a miragem, a gesta, faunesta
preda toda panthera esses nós
preda todos nós
semeia gimnosperma nuinha
semeia tu minha
como se fitasse
como fosse fita
como se só zôo
como se só zinho

.

domingo, dezembro 04, 2011

ao mérito


o beijo é
os abraços são
da sua boca vem
o sorriso,
a vida
e a terra.

a cidade tem
o amor, também
o espaço sai
de fora
e entra
dentro.

a saudade traz
o perdão cai
a calma pousa
às vezes,
aos poucos,
sempre.

o ajuntar,
o desculpar,
o sossegar.
merecem
nosso
amor

.