quinta-feira, julho 07, 2011

Àdùké Ọşẹ


Cria entre os mamíferos
Cria entre toda a carnivoria
Cria de ventre felino
Semente, semente, de estranha alforria
Cria Panthera no mundo
De garras que prendem o coração do mundo 
Leoa prenhe do próprio amor e vontade
Leoa escrava da própria divindade
Leoa das deusas de berços ateus,
Na língua de Cristo:
Leoa de deus.

Senhora das multidões do Livro de Isaías
Branca godiva,
Favorito cavalo de Sylvia
A que nasceu em ser rainha
De um coração todo
De um coração mágico
De um coração anjo de tempestade
Próspera criança, estrela anã
Pesadelo do hipócrita Ocidente
Amiga mais próxima de Calibã.

Àdùké, àdùké, amada
beloved one
Limpa da voz pulsante
Caixas de sabão ọşẹ
em pós desencaixantes
Limpa a garganta da voz pulsante
Sereia da voz sedante
Filhinha amante
Àdùké Ọşẹ, Ariel é ocê
Trix, trix, callithrix
Vem pro meu galho, triquinha
E balança pelo rabo no galho vizinho da tua matrix
Traz teus macaquinhos, triquinha
E fode a vida que a vida é tua.

Ariel wéré, wéré o
Fez jùjú em mim, faz jùjú em nós
Refaz esse mundo cansado de òyìnbó.


segunda-feira, julho 04, 2011

Divinálogo


eu é um tiquim do criador
deus agindo só assim no eu
sem a concordância ou flexão
só uma língua viva em ação

Ué. Cê num era ateu?

ah! teu eu sou pra sempre teu
oh! minha és tu, meu claro anjo
se meu ahteísmo é mais sagrado
o teu ohminhismo é tão profano

E onde entra o Criador?

reza braba é santa compostura
traz fletido o corpo em desejo
de joelhos prosto ao pé da amada
a criatura faz jurar por beijo

Então continua. É pra Deus existir aí?

bem como deus tá em todo lugar
e em lugar nenhum se não há deus
tudo eu sou se me há o meu amor
sumo desse mundo a cada adeus

Você confunde crença e esperança.

quase todo amor é confusão
quase toda dor vem com o prazer
e o maior amor já visto então?
sempre é um esperar rever pra crer

Cê me faz duvidar da sua falta de fé.

o primeiro passo é a direção
o beijo inicial já é a partida
a mesa que se põe é a refeição
a fome já é o gosto da comida

E o que foi feito da falta de concordância? E de flexão?

tal como essas língua, viva, gruda
no céu das nossas duas boca, junta
concordo e não concordo ao fim e ao cabo
reflito amor que é cada vez mais funda

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quinta-feira, junho 30, 2011

em ter me tente



é preciso ter calma por entre o tempo
pés descalços eu me jogo, em fogueira alta
é preciso ser paciente bem a tempo
nu eu sou catapultado, de encontro ao drama
é preciso dar um tempo só pelo tempo
calvo eu me ponho presa fácil dos vermes

é preciso ser sereno por sob o tempo
imberbe eu sou esquartejado em pedacinhos
é preciso sabedoria e além do tempo
tosado imploro à tormenta que engula a mim
é preciso ter os pés no chão do tempo
escalpelado meu sangue atrai a fúria felina

é preciso muito tempo antes que o tempo
já há muito eu me tenha consumido
e se o fantasma da impessoalidade
veste-se em roupas, cabelos e peles
tempos intercalados já não nos bastam
se é nua a linha contínua da insanidade


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domingo, junho 26, 2011

ela



as horas não passam
até mesmo os segundos
esses pontinhos meteóricos e afobados
e quase mudos do
teórico fluir do tempo teimam
em se arrastar como
estupendas baleias
sem rodinhas
puxadas a cabo de guincho
em atoladas
vias públicas

as horas quiçá se encontram
todas em reunião
solene, ou quiçá
em reunião festiva,
um enterro, um bacanal,
uma partidinha de buraco

e deixam-me aqui retorcido
meu estômago doendo,
estar envolto em mim como
estar numa boa
constritora cobra que a si se come
e a si se engasga
e se aperta e se come e a si
novamente se engasga infim

e desejo sair?
ah! mas o desejo necessita
tempo, o desejo requer movimento
e quer as horas, pro desejar desejar
sem as horas, sem as horas que passam,
não passo de um poste
iluminando ninguém na esquina
(e essa hora é deserta a esquina)

um cão passa
e olha pra mim.
que terrível a baleia,
que terrível argos,
ideafix e o rin-tin-tin
olhando, triste assim
passando,
pro que não passa de mim

ligo a tv e meu olho vermelho
as horas são ela.
o que de esperar merece
só merece porque
agora é que as horas são ela.
preciso estar vivo amanhã
e passar o que atordói – com ela
enchendo o meu coração de ela




sábado, junho 25, 2011

haicai que cresce III: a língua




casquinhas me levam
pra todo céu que eu já kiss
de língua de sogra.




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quarta-feira, junho 22, 2011

amátika

                                              

amátika é uma disciplina acadêmica
de abordagem endo-estética
(tal como a decoração de interiores)
cujo objeto de estudo
ou seu olhar preferencial
são as pessoas, mormente duas delas,
que em meio ao encontro
de uma com a outra (ou outra, se houver)
produzem um epifenômeno
de proporções cataclísmicas
e pendor interdisciplinar
com a phísica, com a kímica
com a geographia e a gramátika

o método científico do estudo amatikal
é um concatenar de procedimentos
que o investigador à deriva
no curso do próprio processo
não tem o menor controle
da fase experimental
limita-se a observar, os olhos arregalados
dois amantes (ou outro, se houver)
quanticamente alternando
de partículas polivalentes
de beijos, juras e além
para carícias em ondas
num conceitual vai e vem

a conclusão dos trabalhos
(e a disciplina prossegue)
não está na fluidez dos líquidos
não está na formalização
não está no amor consumado
não está na prole gerada
não está na benção da igreja
não está no brilho dos olhos
de um casal apaixonado

ou em um brilho terceiro
se é plural o sujeito
o trabalho é inconclusivo
sem prejuízo da indagação
amátika é um sempre cuidar
um sem dormir amanhecer
amátika é a disciplina,
não do saber,
do querer