segunda-feira, junho 20, 2011

Pequeno cordel da távola redonda


Retenho uma espada toledana
de altura aproximadamente a minha
dois gumes, folha reta, perfurante
cravada sobre a copa do meu crânio
trespassada a cabeça até o foramen
seguindo em diretiva norte sul
do seio interno e oco da traquéia
e o tronco até o chão vazando o cu.

Se dói-me um puto o cravo da espada
do sangue que ela verte abdiquei
recuso alçar as mãos à empunhadura
e extirpar de mim o amado gládio
meu centro empalo à giratória Terra
e enterro se preciso até mais fundo
me prendo pelo pontiagudo eixo
que esse eu quero, e nenhum outro mundo.

Concedo sem piscar o olho entretanto
que um outro alguém o encanto me desfaça
ou a flor dos meus desejos para sempre
ou um rei bretão das lendas cavaleiras
ou qualquer um que sinta que o amor
cravado só em mim e em mais nada
transfere por magia ou leis de einstein
a dor que eu sentiria para a espada.

Remove então ó merlin do inferno
a lâmina da dor e da loucura
de dentro do meu corpo ensanguentado
liberta-me da comunhão terrena
e prometo que de então até o futuro
até a última excreção de mim saída
atravessou-me a última espada
amei a última vez na minha vida.

sábado, junho 18, 2011

romance de primeira linha



redonda lisa e esguia
o que se vê todo dia

entrado em ti geografia
o que se quer todo dia

novelo em si se desfia
o que se faz todo dia

anseia a dor e a alegria
o que se diz todo dia

torpor de após a folia
o que se dá todo dia

amor queimando de dia
o que se põe todo dia.

beleza em filosofia
o que se vê todo dia

ardor enchendo bacia
o que se quer todo dia

roçando a linha de guia
o que se faz todo dia

boca voraz faz magia
o que se diz todo dia

ouvir o som da alforria
o que se dá todo dia

sair da toca vazia
o que se põe todo dia

antes que acabe outro dia.  


sexta-feira, junho 17, 2011

Amiga



eu tento reta, reta, e sai torta, torta
eu tento em cima, cima, e sai baixo, baixo
eu tento o sol, ó sol, e sai a chuva, ó chuva
eu dou as costas pro vento
eu me a encontro
ela faz certo, certo, certo
ela não ama errado, errado
ela não vira do lado de baixo
ela lembra, lembra da chuva
ela meu bem escreve seu nome
e ela é cima quando é cima
e ela é baixo quando é baixo
e ela é frente quando é frente
e ela é verso quando é verso
e ela e eu desenhamos, amos, amos
e eu e ela construímos, imos, imos
e eu e ela enfeitamos, amos, amos
e eu e ela rimos, rimos, rimos
e eu e ela rolamos, rolamos
e voamos, voamos, voamos
e inseparamos
e ela sai torta e sai baixo e sai chuva
e nos molhamos
e é para sempre
e não para nunca
este presente


quarta-feira, junho 15, 2011

Amada




os nomes de todas as flores do mundo
estão impressos em um livro
de folha de pele de cabra
às margens
do guadalquivir

os nomes de todos os livros do mundo
estão gravados na pétala
de uma flor de albarraz
às margens
do guadalquivir

toda flor, todo livro e todo rio
todo odor, o saber e o fluir
deste mundo, o antigo e o porvir
estão guardados em meu amor
e é por Ela que eu quero existir

seu cabelo aspirar o perfume
saber-me bem em seu colo
e os seus olhos um leito de águas
torbellinas ou calmas que seja
me afogar e desnudo dormir

as 42 batalhas que eu
travei do nascente até hoje
não são flores, nem livros, nem nada
mas um rio e me vê renascer
às margens da minha (...)


domingo, junho 12, 2011

travessia




o sorriso e os olhos andam juntos
no rosto calmo do meu amor
o sorriso e os olhos andam
de mãos dadas
e travessam as praças
o sorriso e os olhos do meu amor

junto ao sorriso outros pequenos sorrisos
andam juntos de outros olhos
e de outros pequenos olhos
rostos tantos passeiam colados
ao sorriso e aos olhos do meu amor

meu sorriso e meus olhos se abrem
e acolhem alegres e iluminados
a luz encendida
a alegria estampada
no sorriso dos olhos
do meu amor

trifásico



eu resto de tudo, resto da vida e do furacão
o resto da vida do dia seguinte ao final
é final e é destruidora, é devastadora e é fortíssima
cada das três fases de cada forte furacão

e quais são as três fases do furacão?
e que fases mais há que as três de um furacão?
e quantos furacões de três fases haverá
pra três fases haver para cada furacão?

levanto do leito seco de leite
e sento-me, os pés no chão
quem visse um fio de vida a três
sonharia ter sido ali um furacão

e calo-me, que a voz não resta
e deito no lixo somente o que presta
sim, tem três fases, o furacão
contá-las, uma a uma, me basta:

o furacão tem três fases: a forte, a fortíssima e a devastadora
o furacão tem três fases: a devastadora, a destruidora e a final
o furacão tem três fases: a final, o dia seguinte e o resto da vida
o furacão tem três fases: o resto da vida, o que resta de tudo e eu 


caçadora



quando a carne, os olhos, os braços, a veste e a face 
matam a mim nesse mato
despido do medo
eu torno
irriquieto
quieto muito
que
não há mulher
nesse mundo
que tire
a vida assim
do avesso
de mim

eu só faço amar
por ela não nunca acabar
eu só faço amor
pra ela não nunca ter dor

quando a flecha, a ponta, a lança, a seta, a bala e a caça
cortam a mim nesse mato
vertido em vermelho
eu paro
e choro
choro muito
que
não há mulher
nesse mundo
que torne
o mundo meu
do avesso
como essa

eu só faço amor
pra ela não nunca ter dor
eu só faço amar
por ela não nunca acabar



sábado, junho 11, 2011

de todo modo




eu quero comer o mundo todo
eu não quero comer todo mundo
eu não quero o mundo todo querendo
eu mudar de lugar todo mundo

ela não é todo mundo
ela é meu mundo todo
eu todo querer e eu tudo mudar
depende do modo de quem quer me dar.



sexta-feira, junho 10, 2011

jondo




um céu aberto
a cerveja gelada
um doce de côco
a ponte rio-niterói
um abraço
a mão
uma sexta-feira
o belo horizonte
um gelo seco
a dor
uma canção de amor
a cama
um experimento largo de doses alopáticas
a ela
nada disso é a felicidade
eu nado disso 


terça-feira, junho 07, 2011

insonho



eu estou leve, meu amor
como a pluma ou a pena ou a seda mais leve
que pode a brisa sem força levar

mas não consigo dormir

não por furacão
nem por falta de calmaria
que a calma
eu tenho
você me deu
e ninguém nesse mundo descalmaria

só não consigo dormir

porque a sua imagem
maravilhosa
de mulher
toma todo o meu pensar

a mim me gusta
quedar
a pensar
em você
de verdade
e nem sonhar.

segunda-feira, junho 06, 2011

sem silêncio




vasculhar os cantos a procurar
um risco dela
abrir o messenger
o face
e o gmail
em duzentas janelas
tentar de tudo
reforçar a barra
recarregar a página
de cada rede social
o telefone, esse coitado
eu nem olho mais pra ele
nem o olho o fixo
nem o móvel
é hora de agir:
reiniciar o lap
fazer um café
e tomá-lo,
sacar um cigarro,
e fumá-lo
e o tempo,
passá-lo,
como se tem passado
como se eu não a
tivesse
esperando
desesperado
e
não me calo 


domingo, junho 05, 2011

a fêmea ao solo


a fêmea tem mais que fazer 
do que apenas te amar
e não escutarias

a fêmea faz tudo em dobro
a te também atender
e não escutarias

e a fêmea se sai voando
terias tu asa e ouvidos
e a seguirias?

escuta então isso ao menos
que se é igual ao amor
não dói ao olvido:

e a fêmea joga um de cada vez
e 1 e 2 e 3, 4, 5, 6...
os pés, um deles de cada vez
ao solo
como quem amacia o solo
“com a dura e muscular energia”
do poeta

como quem trata o duro solo
como massa macia
de modelar

e tu te deixas modelar
e por não seres solo 
és contente

sábado, junho 04, 2011

um crime com o poema 20 de neruda




neruda devia ter uns 20 e poucos anos
um menino, portanto
quando escreveu seu poema 20
(e os primeiros 19, é certo)
dos seus 20 poemas de amor
e uma canção desesperada

desculpe-me a falta de respeito,
menino neruda
se recorto só o que me interessa
do teu poema antes inteiro 20
e
eis o crime:

Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Eu a quero, e, talvez, ela também me queira.
Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
E o verso cai na alma como na relva o orvalho.

Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
A noite estava estrelada e ela não estava comigo.
Eso es todo.
A lo lejos alguien canta. A lo lejos.
Minha alma não se contenta com tê-la perdido.

Posso escrever os versos mais tristes esta manhã.
Como para acercarla mi mirada la busca.
Mi corazón la busca, y ella no está conmigo.
De otro. Será de otro. Como antes de mis besos.

mi corazón la busca, y ella no está conmigo.


quarta-feira, junho 01, 2011

olé



eu nunca deixei por menos 
por menor o ardor que fosse
homem ou mulher nenhuma
me ombrear em meu lamento

eu não deixo ser humano
de gênero ou sexo que seja
tourear-me meus desejos
impingir-me o que quer que seja

pois sou dono do meu corpo
senhor de minhas vontades
só num ponto perco o timbre
só num canto jogo o xale

é o canto em que a morena
essa que eu amo e amo tanto
essa mulher é meu touro
meu olé é olhe ela e arde

jogo a capa na arena
deixo o touro me furar
e sangro como sangra um demônio
até o sangue se esvair
até acabar

e me prostro a morrer
para lhe mostrar
que quem morre de amor
morre pra mostrar
que morrer de amor
é melhor e é sem dor
ou é menos dor
que morrer
o amor

segunda-feira, maio 30, 2011

cordel reencantando


lampião…
meu candeeiro encantado
desencanta do lenine
tira essa calcinha preta
e veste a sunga do ednardo

lampião...
cabra da peste do ardor
que angico mais bonico
você viu lá no agreste
virado um mar de amor

maria, maria bonita
que tu fez com esse cabra?
botou um feitiço nele
amada de faca e fuzil
e diz que tudo se acaba

maria, bonita maria
serpente, bruxa e guião
morde logo esse moreno
e o que sobrar do veneno
fica de alimentação

lume de serra talhada
malhada do caiçara
antes que o encanto passe
corte nossas cabezotas
e espete na mesma vara

bonita maria, maria
encantou o lampião
num se acaba o encantamento
que ainda não nasceu volante
pra puxar meu freio de mão

.

domingo, maio 29, 2011

bebeto




eles e se é para a vida inteira
ele e se é dois de qualquer maneira
ela e se é um desejo de amar

qualquer e se é de outro jeito amigo
nenhum que é de outro jeito o perigo
todo cuidado se é vale a pena

que coisa bonita é e que sai dessa pena
qual a palavra é e a dor não condena
quantas tristezas o amor vai curar
como deixar de entender essa pena
quem faz da pena um jeito de acampar.


sábado, maio 28, 2011

os poemas morreram




os poemas morreram
os poemas acabaram
o poema, esse, último
os poemas tombaram
como continuar poemas
depois da primeira
trombada?

os poemas morreram
quando a palavra
enamorada
revê do nada nascida
nata, nata, nata, nata
tremblada

o poema morreu
quando a palavra vê
que o amor
não é

os poemas remorrem
quando a mulher
não é
mais nata

saída da via noturna
e com outro homem
combinada

ungida en santo antónio
y por otro hombre
amada.


quarta-feira, maio 25, 2011

brincadeira



vamos brincar duma coisa, vamos?
aceite se for audaz
não é brinquedo o negócio
é difícil, é foda, é trash e um
puta risco pros dois de nós

a brincadeira se chama “senhora”
a origem do nome eu nem sei
é um tipo assim de combinado
onde o cara que erra tá certo, e o que sabe
nem viaja que já acertou

a cada hora do dia, cada dia
de cada semana do mês
gata, você é a senhora
e escolhe pra mim um destino que eu
viva uma vez e não mais

cada encontro, na brincadeira
será uma odisséia inteira
de mil personagens em fila
fêmea, cafetão, o fauno e a ninfeta sem um
só elo que ligue a cadeia

o perigo é, charmosa pantera
se pra cada encontro nos traz
um desencontro no meio:
seja de fato senhora - faça de mim sempre um
nunca seu desencontrar.


que a distância não lance




entre nossa distância sequer passa
o papel da mais escassa gramatura
quase qualquer medida extravasa
o espesso da infinitesimal lonjura
o menor micrômetro mal e mal traça
o desvão que a clara vista em vão perscruta

a separação embora toque o insensível
despeja água em gretas nanométricas
e em fosso aberto um jorro desprezível
torna o suco enchendo suas arestas
o efeito acumulado beira o impossível:
proliferar canais fractais entre as florestas

do céu goteja o choro em bruta tempestade
o pesar de uma torrente forte em chão piano
estoura uma barragem toda de saudade
um lago inteiro esse pequeno duto alimentado
e sulca a saudade em muito pouco tempo
o leito nosso em catastrófico oceano.


domingo, maio 22, 2011

tradução



quando eu ficar velho, de cabelos ralos
daqui a muitos anos
você ainda vai me mandar presente
no dia dos namorados
felicitações de aniversário
e uma garrafa de vinho?

traduzo pra você essas palavras
de um roqueiro inglês
da cidade de liverpool
porque ainda que essas palavras
não sejam nascidas em minha boca
traduzem o que minha boca sente

que é amar e ser amado por você
por todos os dias do meu presente.