quinta-feira, abril 07, 2011

o melhor lugar do mundo é aqui e amanhã


eu não sei o que acontece comigo
nem sei se é comigo que está acontecendo
nem mesmo se isso
está mesmo acontecendo
não é o mundo que muda?
não é a gente que muda o mundo?
não é o mundo que muda a gente de mundo?

ou fica o mundo parado
e a gente
tal como o trem na estação
sente o chão
e o mundo girar sob os pés
por qualquer razão?

mas importa mesmo saber
se isso acontece é comigo?
importa lá tanto saber
se comigo ou com o mundo acontece, ou
se afinal de contas,
de fato isso tudo acontece?

pois mesmo se acontecesse
- só comigo
mesmo se acontecesse
- só com o mundo
ou se nem com o um nem o outro
nem um pingo de mudança
houvesse a esperança mais vã

eu ainda estaria feliz

pois eu amo
e vou amar
a amada mulher da minha vida
no verdadeiro e ensolarado dia
de amanhã

sábado, abril 02, 2011

tou tão reiro


que venga
que venga
o amor com seus chifres
que eu espero
essa cabra
com a capa
em riste

eu planto
as tamancas
no solo da arena
estufo
meu pecho
e enfrencho
a contenda






o amor
o amor
anda luso e valente
e eu sou
mais bravo
trágica
mente

me mata
me mata
me enterra tus cornos
me hace
sangrar
és toura
sou gente

sexta-feira, fevereiro 25, 2011

A FANTÁSTICA AMEAÇA DO SIONISMO FEMININO BELO-HORIZONTINO QUE SÓ DUROU QUATRO ANOS

para Elena Costa

Vou contar, é claro, uma história de espionagem e romance. Espiávamos o quanto podíamos as nossas colegas judias da Escola Albert Einstein, na rua Pernambuco. A escola ainda funciona no prédio da União Israelita de Belo Horizonte e umas tantas vezes invadimos a biblioteca para roubar livros em hebraico. Um adolescente metido a intelectual rouba livros. Tudo bem. Mas roubar livros em hebraico é coisa de gente perturbada ao extremo, e nós éramos tudo isso.

Para confessar uma modéstia perdida, eu sempre desconfiei que não éramos nada daquilo, mas mudei de idéiaalguns meses, na comemoração dos 70 anos da escola. A exposição de fotos mostrava desde relíquias amareladas dos anos 30 (imaginem, do tempo da diáspora!), até as escaneadas do aqui-e-agora, mas nem uma lembrança do nosso período - de 1980 a 1983. Antecipando em um ano o tema do livro de Orwell, a Mossad suprimiu a memória de nossa guerrilha escolar. Éramos uns vitoriosos e não sabíamos! E não foi à toa. Aquela foi a época mais conturbada de toda a história da humanidade: o governo embalava o Pró-álcool e John Lennon, que era mais popular que Jesus Cristo, acabara de ser assassinado. O sonho - e a era das discotecas - acabou. Os tempos eram ao mesmo tempo anacrônicos e incongruentes: o Pirulito ficava na Savassi, lugar onde nunca esteve antes e jamais iria ficar novamente.

Nosso jeito de perverter tudo e todos era bem especial: pela absoluta falta de propósito embrulhada em engajamento visual. Como nossos pais diziam-se de esquerda, andávamos na escola e pela Praça da Liberdade afora com camisas vermelhas e uma foice e um martelo enormes e amarelos no peito. De 80 a 83, ninguém sabia o que fazer com isso: nossos avançados pais e professores não decidiam se isso era louvável, perigoso ou idiota. E a polícia ou achava bonito ou não ligava (quem, na época, havia contado alguma coisa sobre comunismo para um PM nos seus vinte e poucos anos?), e a UMES-BH - dominada por simpáticos stalinistas filhos de peemedebistas da Faculdade de Medicina - nem sabia que a gente existia. os quase-extintos fascistas, resquícios da Tradicional Família Mineira (hoje muito informatizada para merecer esse nome), eram a nossa salvação, brindando-nos com muita cara feia nos ônibus, no Parque Municipal, no Palácio das Artes, no Mercado Central. Éramos hedonistas, está claro: máxima culpa de Belo Horizonte e das judias do Einstein.

Um parágrafo para nossa colega, saudosíssima Elena. Alunos, professores e rabinos do colégio Theodor Herzl foram à nossa escola para um jogo de bola amistoso (judeu contra judeu é amistoso) e Elena comandou a festa. Sob sua liderança, estampamos em nossas camisetas um chocante “Beguin retzaeh” (Menahem Beguin: o líder israelense que comandou o massacre de Sabra e Shatila; retzaeh: provavelmente “assassinoem hebraico castiço - nunca conferimos a pertinência do termo). Amistosidade abalada, é óbvio, e nunca mais nossos irmãos co-sionistas voltaram a pisar no nosso lado de Gaza.

Hoje olho para minha cidade e nem consigo imaginar queapenas 25 anos Belo Horizonte era o epicentro de uma grande conspiração internacional. Como ficou o mundo depois disso? Uma de minhas filhas estuda no mesmo Einstein; os Estados Unidos continuam se achando donos do mundo; e meu deca-campeão América segue com os resultados de sempre. Até o Pirulito está onde sempre esteve, eterno na Praça Sete, como se sua temporada savassiana tivesse sido apagada da novolíngua belorizontina. E permanece suspirar por um Oriente de Médio pra melhor. Paz praqueles povos de nariz grande. Isso, sim, iria redimir nossa linda futilidade da Rua Pernambuco.


quarta-feira, janeiro 26, 2011

O sorriso do lagarto

O que digo ao longo deste texto me foi sugerido por duas cartas de leitor, publicadas no mesmo dia 18 de janeiro último, em O Tempo. Na primeira, o leitor se diz indignado com a TV Globo por conta de um final de novela eticamente incorreto. O leitor-telespectador  denuncia um “... efeito socialmente negativo, devido à força da emissora, ao mostrar a vitória do crime e do mal sobre o bem e a moral”. A segunda carta também trata de uma indignação moral manifesta: a leitora-telespectadora assiste chocada, na mesma Globo, a presidente Dilma e seus comandados esbanjando sorrisos em plena reunião ministerial (conta-nos a repórter em off) sobre as trágicas enchentes no Rio.

Desde o início gostei das duas cartas, assim lado a lado, pois elas são uma caricatura da troca de papéis entre os gêneros: o macho preocupado com o andamento da novela e a fêmea atenta ao noticiário nacional. Mas é preciso esquecer os gêneros pra atentar para a relação entre o público (qualquer público) e a televisão (qualquer divulgador massivo de entretenimento e opinião).  O telespectador 1, que como todos nós está acostumadíssimo à moral teatralizada (das tragédias de Ésquilo a Hollywood) sabe muito bem que novela é novela, que tudo é encenação. Mas se permite emocionar, e, após limpar as lágrimas, se dá conta que o teatro tem uma função social, que ali se passa uma “mensagem”, e tanto pior (daí sua indignação) se a tal mensagem não se ajusta aos melhores valores que o telespectador 1 julga reconhecer na própria sociedade.

O telespectador 2 também está acostumado à moral teatralizada. Também se emociona com o que assiste e comunga, com o telespectador 1, distinções semelhantes sobre o bem e o mal. No entanto, ao ser avisado que aquilo que assiste não é teatro, mas um relato factual das tragédias humanas, põe de lado tudo o que sabe sobre quem produziu o relato, sobre o responsável pela “mensagem” e se concentra no show em si mesmo. Dilma às gargalhadas enquanto discute a morte de centenas de pessoas. O telespectador 2 não precisa entender (e isso foi dito na matéria) que naquela reunião discutiram-se outros assuntos. Não precisa entender que imagens e sons podem e são editadas e que, naquele caso específico, imagens das risadas governamentais e a parte crucial da locução da repórter - a reunião sobre as enchentes - foram sincronizadas.

Em suma, ao contrário do “consciente” telespectador 1, apreciador e crítico das tragédias ficcionais, o telespectador 2 está magicamente encantado pelo espetáculo. Alienado, para usar uma palavra fora de moda. A indignação pela imagem do mal está ali presente, mas o mal em carne e osso continua a sorrir para o espectador, ou sorrir do espectador. E assim seguimos vivendo ao vivo essa outra criatura da ficção, o Grande Irmão vislumbrado por George Orwell e reprisado em nossas casas à noite, na telinha da Globo. Uma calamidade verdadeiramente pública.       

domingo, janeiro 02, 2011

Beatles, Assange e Ano Novo

Certos assuntos políticos são difíceis de desenroscar, pois chegam fantasiados até nós, sempre que nos falta espírito crítico ou sobra preguiça. Um meio de despolitização é a manipulação dos veículos de comunicação de massa, empurrados daqui e dali para disseminar gostos, opiniões e esperanças por nossa cultura afora. Tudo pode descer goela abaixo quando bem divulgado. Não é à toa que Vargas Llosa chamou os sertões de “fim do mundo”. Para esse sul-americano naturalizado europeu, qualquer lugar que se afasta do centro hegemônico é o fim do mundo. Dele, é claro. O Conselheiro foi tão mais sábio quanto desplugado do mundo de Vargas Llosa. Euclides da Cunha também.

Século passado, surge uma revolta contra a massificação, sob a bandeira da paz, do amor e todo o resto. O alvo era o consumismo e o anticomunismo histéricos, reforçados pela mídia no ocidente, inclusive no Brasil. Os Beatles, enlatados para consumo alienante, eram pessoas sintonizadas com a disposição rebelde de sua geração, e se posicionaram publicamente o quanto puderam (contra a guerra no Vietnã, por exemplo). Seu papel político foi espertamente distorcido, suscitando a desconfiança das esquerdas e, apesar da boa música, o apoio da indústria brega da diversão. O assassinato de Lennon, à beira das festas de fim de ano e alvorada dos anos 80, sofreu um trabalho de pasteurização da mensagem política, propagado em uníssono pela mídia: voltem pra casa que o sonho acabou. Essa contradição beatlemaníaca, qualidade política e estética vendida como latas de salsicha, era a tônica da contracultura versão anos 60, pois os revoltosos eram filhos adotivos (nem tão diferentes assim) do sistema contra o qual tentaram lutar.

E eis que renasce a oposição à politica manipuladora em massa. Agora, são os meios de comunicação que justificam fins mais promissores. Do uso restrito até o dia-a-dia dos adolescentes, a internet tornou-se um comunicador de longo alcance ao alcance de todos. O que acontece com as tecnologias (e conosco) depende do uso que se faz delas, mas a configuração da tecnologia também deve ser levada em conta. Se a “rede” de TV divulga a partir de um centro, na internet os nós da rede são bilhões de usuários, que em um momento ou outro irão interferir, individual ou coletivamente, na qualidade da mensagem distribuída pelo sistema. É como as conversas que mantemos uns com os outros há milhares de anos, tecendo a rede maior que chamamos de cultura.

Sim, há espaço para a hegemonia, para manipulação de mecanismos de busca e outros truques à disposição do poder instituído. Mas isso faz parte do jogo, mesmo na conversa interpessoal. O que muda é a força de propagação, que a comunicação distribuída em rede, confere a qualquer um: não apenas a governos, grupos econômicos e veículos de comunicação mas a mim, a você ou a Julian Assange. Estamos voltando aos tempos em que fazíamos, todos, a cultura. 

Publicado em O Tempo, 31/12/10

quarta-feira, dezembro 22, 2010

Cat people


Na sala de espera somente nós dois.
Escolho o canto esquerdo junto ao banheiro feminino.
Na parede oposta lê Veja uma mulher.
- Esconde Veja a beleza do rosto. 

Pernas cruzadas, bota preta.
Perfeito joelho, notei, a saia é curta e xadrez.
Giro os olhos, cruzo o joelho e a Veja.
- Gata em pele de gente na capa. 

Natassja Kinski abaixa a Veja.
Verdizolhos nos verdizolhos de Natassja.
Vertiginosamente constrangedores.
- Nada abala a Srta. Kinski. 

Diretos e duros e doces os dois.
Grudadozolhos nos meus e os meus nem se fala nos dela.
Ganha a tensão dimensões de grito abafado.
Deixo o limite e a libido à cavalo.

Vou de texano de esporas sangrentas?
Dou de parisiense desistencialista do amor sem pecado?
Vidiando a tez de Natassja Kinski? Obrigado: 
- Divago no claustro doutor em que estamos. 

Nele me estanco prostrado entre garras.
No espaço eterno eu e a penumbra, a gata e a Veja.
Na espreita, a pantera. Goza a verdade do drama:
- Nuvem se esgueira por meu pensamento. 

Pesavam em Natassja problemas legais?
Eu digo: Sabe a Srta. Kinski ler português?
Ela: I beg your pardon? O advogado:
- Pode entrar Sra. Monteiro.

sexta-feira, novembro 26, 2010

Quando o amor acaba: o natural e o desumano no humano

O belo-horizontino Paulo Mendes Campos (hoje nome de pracinha carioca junto à rua Humberto de Campos, no Leblon) escreveu uma bela crônica lírica sobre o amor: "O amor acaba". Mas o Paulo, sendo o Paulo, cheio de ternura, mas moleque, irrequieto, não ficaria satisfeito em louvar o amor piegas, ou chorar o amor perdido. O texto instiga leitora e leitor a percorrerem situações e lugares em que o amor desaparece, mas também ressurge, muda de jeito, de nome, muda até de amor. Diz o final da crônica-poema: "por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba".

Mas que amor é esse, tão disposto a acabar? Amor não é para sempre (ao menos enquanto dure, como ensina outro poeta)? Penso que, nesse poema, amor é algo mais fundamental que o amor romântico (ou mesmo parental) que tanto valorizamos, até o ponto de banalização, nos libretos de ópera, nas novelas e nos bailões sertanejos. Essa nossa mania de tornar o amor sublime, cheio de mistérios, dificulta aceitar que amar é mais corriqueiro (e, por isso, mais importante) para nós, humanos, assim como, acredito, para outros seres vivos. Toda criança cresce cuidada por um membro mais velho do grupo. Cuidar da criança acende o amor do adulto e joga a criança em um mundo em que é natural ser amada e, daí, amar. Somos assim, e ficamos doentes se não amamos.

As manifestações de preconceito ativista, de pregação política do não-amor a alguns grupos da sociedade, nos ensinam a ficar desnecessariamente doentes. As últimas eleições foram pródigas nessa matéria. Ódio aos pobres, analfabetos, índios, negros, a grave questão de saúde pública - o aborto - rebaixada a disputa de rancores morais.

Eleitores descontentes com as urnas demonizaram os nordestinos, imaginando um Brasil dividido entre uma atrasada e iletrada zona vermelha ao Norte, e uma próspera e ilustrada zona azul ao Sul. Os números desmentem essa bobagem, mas, mesmo se fosse verdade, que doença é essa que nos faz desamar ativamente quem vive ou pensa diferente de nós? Sempre há um exemplo que supera a mais desvairada imaginação. A Universidade Mackenzie, de São Paulo, quer agora ter o direito de "ser homofóbica". Entendido? A instituição, responsável pela educação de sei lá quantos mancebos, quer não apenas desamar os homossexuais (que isso é direito de qualquer um), mas pregar o desamor, um desamar militante, digamos. Tal como o adulto, a escola tem um papel cuidador em relação às crianças e jovens. Aqui, só consigo ver doença e, o que é pior, doença ensinada.

Se a ciência ajuda numa hora dessas, cito o biólogo chileno Humberto Maturana, que explica o amor como uma emoção fundadora do domínio social. Ele diz: "O amor é a emoção que constitui o domínio de condutas em que se dá a operacionalidade da aceitação do outro como legítimo outro na convivência, e é esse modo de convivência que conotamos quando falamos do social". Não é? Acho até que o amor romântico - que cultivam entre si homem e mulher, ou, como não sabe a universidade paulistana, outras combinações de gênero - é alma gêmea do amar como fundamento do social. Mesmo quando o amor acaba. Eu mesmo vivo neste momento uma desilusão amorosa das mais perturbadoras em minha vida, e isso, do amor acabar, não me turva o desejo de amar. Pois nós, humanos (e outros seres vivos, acredito), somos assim. Naturalmente aptos para amar e acabar de amar, a cada minuto.


Publicado em O Tempo, 20/11/10 - Ilustração: Duke

terça-feira, novembro 23, 2010

Fraco

há uma vantagem em ser fraco
que só descobri em setembro
partir-se em milhares de membros
e escolher juntar os cacos



fraco é som ouvido no escuro
fraca é a brisa suave
deslizando sobre o corpo
e o fraco goza (eu juro!)

fraqueza fugaz momentânea
fraqueza ao acordar de manhã
fraqueza no corpo e na alma
fraqueza é a força mais insana



uma vantagem adicional
(de ser fraco, bem entendido)
é viver impaciente
impulsivo e visceral 

da víscera tomamos ciência, 
nos é caro cada impulso, 
e se o coração não bombeia 
então haja paciência! 



fraco pra não resistir
fraco sem poder desistir
o fraco é o oposto do morto
por ti
por ti
por ti


Belo Horizonte, outubro de 2010

domingo, outubro 17, 2010

No ar o blog do Pedro

Está no ar o blog do companheiro lingüista Pedro Perini, Gramaticalmente crônico. O texto "Ecologia de Inclusão" sobre as políticas e vivências das habilidades e desabilidades é (entre muitos outros textos) um brinco.

"A recente adesão do Brasil à Convenção Internacional sobre os Direitos de Pessoas com Deficiência é um fato histórico relevante. Uma vez signatário deste documento, o país ingressa em um grupo de países que assumem diante da ONU (Organização das Nações Unidas) o compromisso político de levar adiante práticas já em curso e desenvolver pesquisas, programas e políticas para tornar viável às pessoas que tenham alguma deficiência o exercício e o gozo do lazer, do trabalho, da família, da política e das individualidades de cada cidadão, sem discriminação de cor, credo ou corpo...".

Confira o texto completo no original: http://pedroperini.wordpress.com/2010/10/12/ecologia-de-inclusao/#comment-20

sexta-feira, agosto 27, 2010

É de graça, é na praça, e é livre

Dia 12 de setembro, domingo, na Praça da Liberdade em Belo Horizonte, acontece o 8º ano do Livro de Graça na Praça - LGP 2010, com distribuição gratuita do livro Contos de Tradições, com 18 autores, de livros infantis pela Aletria, e de cordéis.

O LGP 2010 faz parte do calendário de eventos de Belo Horizonte e conta com a participação do Clube do Livro, IBC, SENAC, SESC, Corpo de Bombeiros, PMMG, Mazza Editora, Copasa e Belotur.

Domingo de sol (espero!) e livro de graça pra criançada e pra marmanjada.

segunda-feira, junho 14, 2010

O índio de mentira


Uma versão do famoso ato do apóstolo são Tomé (ver e então crer) tem sido praticada com entusiasmo cada vez maior pela grande mídia e seus espectadores. Nessa versão, o ato de ver (ou ler) exige a imediata crença no visto ou no lido. O curioso é que, se reprovamos em são Tomé a falta de fé, o pecado da nova versão é o excesso. Ou a falta de visão crítica. Mire-se no exemplo da revista semanal que atende pelo apropriado nome de Veja. A revista atingiu o cúmulo do neo-sãotomeísmo em sua matéria especial “A farra da antropologia oportunista” (edição 2163, de 05/05/2010). Não custa ver com os próprios olhos um trecho no início da matéria que, creia, diz assim: “Áreas de preservação ecológica, reservas indígenas e supostos antigos quilombos abarcam, hoje, 77,6% da extensão do Brasil. Se a conta incluir também os assentamentos de reforma agrária, as cidades, os portos, as estradas e outras obras de infraestrutura, o total alcança 90,6% do território nacional.”.

O texto é indubitável. Apresenta o fato assombroso, embrulhado em precisos percentuais, de que índios, quilombolas e camponeses (que pensávamos ser a porção marginalizada do Brasil), somados à cobertura de mata virgem cada vez mais reduzida (não me pergunte como obras de infraestrutura entram na conta), tomaram conta do país, numa épica revolução silenciosa. O que sabemos sobre 500 anos de massacres, subjugações e humilhações dos índios no Brasil é pura ilusão. Devemos crer que os verdadeiros brasileiros estão acuados e quase expulsos pela indiada ressurgida das cinzas. 

A matéria segue dando asas a uma imaginação fértil e perversa, denunciando a “indústria da demarcação” que enche de dinheiro o bolso de antropólogos e índios. Numa redação, digamos, ousada, o texto desfila subtítulos que na minha terra seriam considerados maximamente preconcei-tuosos: “Os novos canibais”, “Macumbeiros de cocar”, “Teatrinho na praia” (índios fantasiando-se de índios!), “Made in Paraguai”, “Os carambolas” (os supostos quilombolas!). 

Não há o que comentar. O visto fala por si.

Há questões graves aí: a matéria desrespeita a boa prática jornalística (o trato com os fatos e pessoas reportados); desrespeita toda uma classe profissional (os antropólogos); e assume a defesa clara (e invisível) dos interesses mais predatórios, que avançam insaciavelmente sobre índios e terras desde que somos Brasil. Tudo isso é muito sério mas quero frisar uma quarta questão. Crer à primeira vista só é possível quando a mídia mostra o que queremos ver. Por mais miseráveis e desarmados de suas culturas pelas frentes de civilização, o índio sempre continuou sendo índio. E isso nós não aceitamos! Como os demais povos que fizeram o Brasil e, bem ou mal, se abrasileiraram, queremos que o índio faça o mesmo. Nos roemos de raiva com a insistência do índio em ser índio, e, ao ridicularizá-lo, a Veja nos dá o meio de revidarmos. Acredite quem quiser. 

 Publicado em O Tempo, 13/06/10   

sábado, maio 29, 2010

Umbigodumundo

Num passado distante Oduduwa saiu do orum - o além-mundo - pra fundar uma cidade aqui no aiê, o espaço do humano e outros seres viventes. Mas nada de novo sob o sol, a não ser reduplicações do que era. Cada um de nós no aiê tem seu duplo no orum: Barack Obama não teve 70 milhões de votos, mas o dobro disso, somados os terrenos e os votos do além. E então fui eu fazer a mesma viagem oduduwense (apesar d’eu mesmo não ter poderes divinos a não ser o de preencher formulários corretamente e lograr uma posição em uma universidade nigeriana). Da darcysica Brasilândia pro umbigo do mundo, a cidade de Ilê-Ifé. Todo brasileiro, criado ao embalo de iemanjás, xangôs, oxuns e iansãs soprados no ouvido, tem motivo de sobra para considerar esta terra com o devido respeito. Mas como ensinam os iorubanos, Ifé é mais que isso, é o próprio nascedouro do humano. 

Berço da humanidade” virou lugar-comum para a África. Este continente produziu tantas diásporas fundadoras - umas das mais recentes fez da Bahia e de Havana ultramares iorubás - que o termo “afrodescendente”, no rigor da história, não discrimina nada, pois nos nomeia a todos. Na Brancolândia, evolucionistas das mais diversas furta-cores ideológicas contorceram-se em suas teorias e, por mais que não gostassem (isso nem é racismo, é algo mais fundamental: medo do escuro), as origens, quaisquer origens quando o assunto é o bicho-homem, inevitavelmente transcaem na África. O velho Darwin tinha matado a charada, sem nunca ter visto um fóssil humano africano: se nossos parentes mais próximos - gorilas e chimpanzés - vivem na África, eis um lugar incomum para uma origem comum. E, de fato, desde a profecia odu-darwiniana, nada demasiadamente humano com mais de 2 milhões de anos foi, até hoje, desenterrado fora da África. Nada, nada, nada, Blitz dixit.  

Contudo, um tio-avô mais recente do humano, o Homo erectus, foi, sim, encontrado em outras plagas, e um evolucionista pretofóbico dos anos 60 veio com essa: “a África pode ter sido o jardim-de-infância, mas a escola que fez do humano, humano, foi o grande continente Eurasiano”. Os orixás não deixaram em branco. Um santo baixou no meu britânico amigo Chris Stringer, e ele mostrou, com todos os ossos e genes, que a talescola eurasiana” não deixou aluno vivo pra contar a história. Há mais de 100 mil anos surge uma nova espécie no planeta África que iria migrar para todo o globo, das mais remotas ilhas do Pacífico sul aos fjords escandinavos e igarapés transamazônicos: o Homo sapiens. Isso quer dizer, preto no preto, que cada um de nós é profunda, exclusiva e originalmente africano. A teoria de Stringer ficou conhecida como “Out of Africa”, e hojenome a uma loja de souvenirs no aeroporto de Jonhanesburgo. 

Mas estou divagarando. Voltando ao assunto deste artigo, e em respeito ao titulo, devo explicar por que o lugar em que estou é, de fato, o umbigo do mundo, ou do aiê. Um dos achados interessantes da origem africana da humanidade é que, analisando dois indicadores genéticos de linhagem exclusivamente feminina ou masculinarespectivamente, as mitocôndrias e o cromossomo Y – chegou-se ao lugar e à época aproximados em que viveram uma “Eva” e um “Adão”, ou seja, a mãe e o pai de toda a humanidade viva. Isso não quer dizer que esses foram os primeiros humanos, mas que eles, dentre seus muitos contemporâneos, deixaram descendentes entre nós, hoje (também não quer dizer que o casal dividiu a mesma choupana: linhagens materna e paterna seguem percursos distintos). Então, leitora ou leitor, quando você disser “mama África”, pense na venerável propriedade desse termo: as mitocôndrias que trabalham no interior das suas células são tatatataranetas das organelas que, há mais de 100 mil anos, viveram nas células de uma respeitável matrona africana. Se você for mulher, seus filhos vão herdar esse legado, mas se for varão... 

chegamos a Adão e (espero!) no umbigo do artigo. Quem leu a Bíblia com atenção, ou estudou a história das preocupações teológicas, deve ter notado um problema deveras seríssimo com que se depararam os intérpretes das escrituras. Adão tinha umbigo? Caso particularmente grave pros artistas incumbidos de ilustrar as passagens sacras. Decidiu-se, por fim, que sim, o primeiro macho tinha umbigo, e por um motivo preciso: Deus não criou apenas o mundo, criou também sua história. Ao dar um umbigo a Adão (aliás, também a Eva, igualmente desprovida de uma mamãe), o Artífice de Tudo empresta às origens a mesma dignidade estética, e, portanto, legitimidade, do desenrolar dos eventos. 

Por isso a cidade de onde escrevo essas palavras, Ilê-Ifé, é, com todo direito divino e pagão, a morada umbilical do universo. Os céticos (e, não, os Celtas, que eram muito devotos) podem argumentar que Oduduwa é um personagem histórico do século 11 (em uma Ifé habitada há milhares de anos), mistificado pelo povo iorubano como pai-fundador. Mas mesmo os rigores da evidência científica concordam que, se não foram os próprios habitantes de Ifé os paladinos da aventura humana ex-Africa, muita coisa aconteceu no próprio continente, como o surgimento de vários povos a partir de uma região coincidente com a Iorubalândia (os bantus, por exemplo, que se espalharam por todo o centro e sul africano). Sendo assim, sejamos simétricos, como nos ensina a novíssima antropologia pós-moderna, e aceitemos a sapiência judaico-cristã, que teologicamente coloca um umbigo numa barriguinha biologicamente lisa, e aceitemos a sabedoria iorubana, que coloca um duplo no orum para cada ente do aiê. A humanidade surgiu aqui, na cidade sagrada de Ilê-Ifé, um início fecundo de precedentes, tornando nossas origens ainda mais originais.

Publicado no Cometa Itabirano novembro/2008