quinta-feira, outubro 03, 2013

tântricos quasares




 
na cozinhassendemozo fogo
calor da panela
vapor dágua começassinsinuar
e chega até nós no balcão
você olha fundo no fundo dozolhos
seuzolhos me pedem
me pedem, eu vou
não nada dizemos

tocando nus com as pontas dos dedos
guiamozum ao outro pro lado dassala
janela táberta
deixando correr o ventinho suave
quessopra de fora de dentro dassala
as cortinazestão... cerradas
fassol
a luzatravessas cortinaze pintassala de verte

sentamonos, sentamos nus.

as pontas dos dedosse tocam
lambemuzos próprios lábios
mirandozolhozum do outro
sem desligarmozo fio
que une as pontas de nossos dedos

sua mão avançassobre meu colo
entra por baixo de minha camiseta
iacaricia, aminha barriga
vocême aperta, perto, perto
sempre olhando em meuzolhos
sempressuspiro,  respiro fundo
soltum gemido baixinho e pro fundo

sua mão desce comumaaranha
lisa emacia, quente efurtiva
sobe pela barriga e ganha meu peito
e meu peito se abre comum prado
comum campo de fartas delícias
paros passeios dassua mão

seus dedos, tuntum, tamborilam
a pele do meu peituarfante
um, dois, três, doze, trêze
digitam seus dedos miúdo desejo
palmada mão pousana pele
cinco, quatro, três, dois, dois
digitam seus dedos miúdos deamor

braillenos, braille nus.

suas pernassão duasserpentes
minhas pernassão duasserpentes
nozenroscamos, nuzesfregamos
pele, pernas, pés, tornozelos
joelhozi coxazi pernazi pele unuoutro
olhandonozolhandonus

quaseluz, quasenus, quasares tântricos

sentados de frente um pruoutro
nossos torsozeretos, rígidos, mágicos
dassintura pra baixo somosserpentes
sentimonos volteano, enroscanduapertano
jiboiando constritores, apertando nus
torniquetezesguios, macios
robustozielásticos

um só tempo, dois tempos, três tempos
o tempo para pras voltas que as pernas
nossas em torno denosco nos dão.

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quinta-feira, setembro 19, 2013

labiorinto



é lento
o passar da tarde
não é tarde
pro meu alento

a boca
em outra boca
tem sabor
de sol fecundo

é corpo
que o beijo habita
é beijo
o meu labirinto

deixo cair
profundo
em sono
a dor que eu tinha

deito no colo
teu
devo-me a ti
sem medo

fios interligados
histórias
que não
terminam

minha cabeça
de boi
num prato
te sirvo agora

aproveita-te,
amor,
do meu resto

sou homem,
e tu
também és

tua alma
mais pura
molha-a de mim,
meu amor

aproveito-me,
amor,
dos teus gestos

és
mulher,
também sou

na casa,
a sós,
que dédalo fez
para nós

deixamos o rosto
deixamos o gosto
de nossa paz

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quarta-feira, setembro 04, 2013

bojador

a suavidade bruta
ri dos meus desejos
inflama minhas dúvidas
arde, beijo a beijo.
nada morre nas lembranças
entre as Velhas e o Tejo.

fio do meu labirinto
ergue esse sol outra vez
lava esse peito do entulho
iça os escombros do mar.
nada morre de esperanças
além das Velhas e o Tejo há o amar.
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sexta-feira, agosto 30, 2013

A pluma



por descuido,
deixei minha janela Aberta
ontem de noite.

de madrugada,
entrou por essa janela
uma pluma.

linda, suave.
penugem violeta no flanco.
duas gemas verdes no topo.
uma fruta vermelha no rosto.
dizeres negros tatuados no raque.
bárbulas loiras, cantantes:
- uma pintura!
(se visto eu tivesse A pluma)

cega, celíaca, miálgica. biplumar pluma.
(se visto eu tivesse A pluma)

eu dormia,
lera umas prosas noturnas de mistério policial,
talvez montalbano ou maigret, ou o poirot.
(ou um livro de contos de doyle 
sobre o Além e o horror)

e entorpecera, desnudo. na cama.

A pluma entra em meu quarto,
roça meu rosto,
revoa em meu peito.

e pousa em meu pinto triste, Amolecido. Adormecido.

pela manhã Acordo,
e não há pluma
nem nada.

só meu pinto riste, Amanhecido. e Aprumado. 
e melado me conta
As Aventuras dum Aplumando descuido.

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segunda-feira, agosto 26, 2013

dor no coração






A dor do coração
é nada
no peito.

Pior é o peito
e os braços
e o tronco
e as pernas
e os olhos
e os lábios.

Que aninham no peito
e que abraçam
e entorcem
e andam
e olham
e beijam:

- A tal dor do coração.

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