sábado, maio 29, 2010

Umbigodumundo

Num passado distante Oduduwa saiu do orum - o além-mundo - pra fundar uma cidade aqui no aiê, o espaço do humano e outros seres viventes. Mas nada de novo sob o sol, a não ser reduplicações do que era. Cada um de nós no aiê tem seu duplo no orum: Barack Obama não teve 70 milhões de votos, mas o dobro disso, somados os terrenos e os votos do além. E então fui eu fazer a mesma viagem oduduwense (apesar d’eu mesmo não ter poderes divinos a não ser o de preencher formulários corretamente e lograr uma posição em uma universidade nigeriana). Da darcysica Brasilândia pro umbigo do mundo, a cidade de Ilê-Ifé. Todo brasileiro, criado ao embalo de iemanjás, xangôs, oxuns e iansãs soprados no ouvido, tem motivo de sobra para considerar esta terra com o devido respeito. Mas como ensinam os iorubanos, Ifé é mais que isso, é o próprio nascedouro do humano. 

Berço da humanidade” virou lugar-comum para a África. Este continente produziu tantas diásporas fundadoras - umas das mais recentes fez da Bahia e de Havana ultramares iorubás - que o termo “afrodescendente”, no rigor da história, não discrimina nada, pois nos nomeia a todos. Na Brancolândia, evolucionistas das mais diversas furta-cores ideológicas contorceram-se em suas teorias e, por mais que não gostassem (isso nem é racismo, é algo mais fundamental: medo do escuro), as origens, quaisquer origens quando o assunto é o bicho-homem, inevitavelmente transcaem na África. O velho Darwin tinha matado a charada, sem nunca ter visto um fóssil humano africano: se nossos parentes mais próximos - gorilas e chimpanzés - vivem na África, eis um lugar incomum para uma origem comum. E, de fato, desde a profecia odu-darwiniana, nada demasiadamente humano com mais de 2 milhões de anos foi, até hoje, desenterrado fora da África. Nada, nada, nada, Blitz dixit.  

Contudo, um tio-avô mais recente do humano, o Homo erectus, foi, sim, encontrado em outras plagas, e um evolucionista pretofóbico dos anos 60 veio com essa: “a África pode ter sido o jardim-de-infância, mas a escola que fez do humano, humano, foi o grande continente Eurasiano”. Os orixás não deixaram em branco. Um santo baixou no meu britânico amigo Chris Stringer, e ele mostrou, com todos os ossos e genes, que a talescola eurasiana” não deixou aluno vivo pra contar a história. Há mais de 100 mil anos surge uma nova espécie no planeta África que iria migrar para todo o globo, das mais remotas ilhas do Pacífico sul aos fjords escandinavos e igarapés transamazônicos: o Homo sapiens. Isso quer dizer, preto no preto, que cada um de nós é profunda, exclusiva e originalmente africano. A teoria de Stringer ficou conhecida como “Out of Africa”, e hojenome a uma loja de souvenirs no aeroporto de Jonhanesburgo. 

Mas estou divagarando. Voltando ao assunto deste artigo, e em respeito ao titulo, devo explicar por que o lugar em que estou é, de fato, o umbigo do mundo, ou do aiê. Um dos achados interessantes da origem africana da humanidade é que, analisando dois indicadores genéticos de linhagem exclusivamente feminina ou masculinarespectivamente, as mitocôndrias e o cromossomo Y – chegou-se ao lugar e à época aproximados em que viveram uma “Eva” e um “Adão”, ou seja, a mãe e o pai de toda a humanidade viva. Isso não quer dizer que esses foram os primeiros humanos, mas que eles, dentre seus muitos contemporâneos, deixaram descendentes entre nós, hoje (também não quer dizer que o casal dividiu a mesma choupana: linhagens materna e paterna seguem percursos distintos). Então, leitora ou leitor, quando você disser “mama África”, pense na venerável propriedade desse termo: as mitocôndrias que trabalham no interior das suas células são tatatataranetas das organelas que, há mais de 100 mil anos, viveram nas células de uma respeitável matrona africana. Se você for mulher, seus filhos vão herdar esse legado, mas se for varão... 

chegamos a Adão e (espero!) no umbigo do artigo. Quem leu a Bíblia com atenção, ou estudou a história das preocupações teológicas, deve ter notado um problema deveras seríssimo com que se depararam os intérpretes das escrituras. Adão tinha umbigo? Caso particularmente grave pros artistas incumbidos de ilustrar as passagens sacras. Decidiu-se, por fim, que sim, o primeiro macho tinha umbigo, e por um motivo preciso: Deus não criou apenas o mundo, criou também sua história. Ao dar um umbigo a Adão (aliás, também a Eva, igualmente desprovida de uma mamãe), o Artífice de Tudo empresta às origens a mesma dignidade estética, e, portanto, legitimidade, do desenrolar dos eventos. 

Por isso a cidade de onde escrevo essas palavras, Ilê-Ifé, é, com todo direito divino e pagão, a morada umbilical do universo. Os céticos (e, não, os Celtas, que eram muito devotos) podem argumentar que Oduduwa é um personagem histórico do século 11 (em uma Ifé habitada há milhares de anos), mistificado pelo povo iorubano como pai-fundador. Mas mesmo os rigores da evidência científica concordam que, se não foram os próprios habitantes de Ifé os paladinos da aventura humana ex-Africa, muita coisa aconteceu no próprio continente, como o surgimento de vários povos a partir de uma região coincidente com a Iorubalândia (os bantus, por exemplo, que se espalharam por todo o centro e sul africano). Sendo assim, sejamos simétricos, como nos ensina a novíssima antropologia pós-moderna, e aceitemos a sapiência judaico-cristã, que teologicamente coloca um umbigo numa barriguinha biologicamente lisa, e aceitemos a sabedoria iorubana, que coloca um duplo no orum para cada ente do aiê. A humanidade surgiu aqui, na cidade sagrada de Ilê-Ifé, um início fecundo de precedentes, tornando nossas origens ainda mais originais.

Publicado no Cometa Itabirano novembro/2008 

sábado, maio 01, 2010

Boa correlação, má explicação


Devíamos repetir a seguinte frase como um mantra, antes do café-da-manhã: não há categorias na natureza. No entanto, categorias são cruciais para falarmos sobre essa natureza, ou, como disse um filósofo austríaco de nome impronunciável, “do que se não pode falar, é melhor calar-se”. Aprendemos muito cedo significados particulares de “mulher” e “homem”, e vivemos a vida às voltas com essas distinções. É a partir dessas categorias que negociamos e modificamos seus significados. Ainda que tal negociação faça parte do dia-a-dia, falar de categorias como construção social continua irritando muita gente, como se isso fizesse toda e qualquer diferença entre “mulher” e “homem” desmanchar no ar. Não faz, eu garanto (tenho duas filhas, e a minha namorada, até onde eu saiba, é uma fêmea legítima).

Pelo que entendo de nossa biologia, e, por outro lado, da história da sociedade industrial, a mulher sempre esteve no mercado de trabalho. Uma regularidade do modo de vida humano é o investimento de ambos os progenitores na sobrevida da prole, e, para além da família, a participação de todos os membros da comunidade na sobrevida do grupo. Isso nunca quis dizer que uma classe de membros (os de ancas largas) tem de ficar em casa fazendo a janta, e a outra (de barbas longas), sair pra caçar ou fazer seja lá o que for. Ao falarmos na correlação entre “consumo”, “mercado de trabalho” e “mulher”, não há dúvida de que cada categoria dessas só faz sentido no contexto das atuais relações econômicas e de outras facetas das relações humanas, como a construção da noção de “outro”.

Tanto os menininhos quanto as menininhas de nossa sociedade tendem a construir a mulher como um “outro”. Um exemplo batido, mas que merece ser repisado pela clareza, são os hiper-consumidos filmes Disney. Eles nos ensinam a viver as relações de consumo em sintonia com a distinção, não só da mulher, mas de “árabes”, “índios” e “latinos”, como alteridades, seres diferentões, de idiotizados a malévolos. Não é preciso ser mulher para sofrer esse processo de estranhamento com algo que, pelas categorias aprendidas, deveríamos nos identificar. Nós, brasileiros, vivemos isso em O Rei Leão. Além do estabelecimento do masculino como a única fonte concedida de poder, ali os nobres leões rugem com acento britânico, enquanto as depravadas hienas cacarejam com o sotaque suburbano de negros e latinos (idéia que roubei de Henry Giroux). Quem acha que a reprodução desse modelo em nada afeta o modo de nossas crianças construírem suas categorias, deve ter assistido, como eu mesmo, a filmes Disney demais!

Dá-se um processo semelhante ao discutirmos o impacto da “mulher trabalhando fora” nas relações familiares, e então inferir - como é objeto deste debate - um papel causal da correlação observada entre a inserção econômica da mulher e um “consumismo”. Tem algo errado aí. Consumismo - a aquisição de bens em escala maior que os ditames da subsistência - é uma demanda dos donos da produção, ávidos por desovar seus artigos a qualquer custo, desde que não seja o próprio. Inicialmente, “mulher trabalhando fora” (insisto em colocar isso entre aspas: pensem nos arrozais do Vietnam!) é uma necessidade de recrutamento de mão-de-obra. Barata, é claro, pois esse recrutamento é feito diretamente em uma sociedade patriarcal que configura - assim nos ensinam Simba e Nala - a mulher como cidadão de segunda classe. Em um segundo momento, não passou despercebido que esse novo trabalhador é também consumidor, com necessidades próprias e específicas, uma diversidade sempre bem-vinda no perspicaz mundo dos negócios.

De onde vem a idéia da “mulher, a consumista”? Não de um histórico poder econômico, pois, como todos sabemos (e a maioria dos patrões, além de saber, pratica), mulher ganha menos, nada mais sendo variável. Para entender, passamos dos leões à loiríssima Barbie. Ao comprar uma Barbie, a menininha leva de brinde (dessa vez roubei a idéia de Shirley Steinberg e Bernadete Mourão): a) um modelo de beleza; b) um modelo de consumo adequado ao feminino (futilidade e alienação); e c), o mais importante, a cultura da não-produção e da submissão. Brinquei de Falcon quando garoto, com o mesmíssimo resultado ideológico do não-brincar-de-Barbie: homens fazem, mulheres consomem. É notável como isso é contrário à experiência da maioria de nós, homens, de mulheres trabalhando duro à nossa volta, a vida inteira!

No mínimo, a categoria “mulher, a consumista” é resultado da sociedade patriarcal de consumo. No máximo, o caminho causal inverso é uma boa correlação, dificilmente uma explicação, e de modo algum uma boa explicação.

* Publicado em O Tempo, 15/01/06, no debate: “A inserção da mulher no mercado de trabalho está relacionada ao aumento do consumismo?”