quarta-feira, junho 22, 2011

amátika

                                              

amátika é uma disciplina acadêmica
de abordagem endo-estética
(tal como a decoração de interiores)
cujo objeto de estudo
ou seu olhar preferencial
são as pessoas, mormente duas delas,
que em meio ao encontro
de uma com a outra (ou outra, se houver)
produzem um epifenômeno
de proporções cataclísmicas
e pendor interdisciplinar
com a phísica, com a kímica
com a geographia e a gramátika

o método científico do estudo amatikal
é um concatenar de procedimentos
que o investigador à deriva
no curso do próprio processo
não tem o menor controle
da fase experimental
limita-se a observar, os olhos arregalados
dois amantes (ou outro, se houver)
quanticamente alternando
de partículas polivalentes
de beijos, juras e além
para carícias em ondas
num conceitual vai e vem

a conclusão dos trabalhos
(e a disciplina prossegue)
não está na fluidez dos líquidos
não está na formalização
não está no amor consumado
não está na prole gerada
não está na benção da igreja
não está no brilho dos olhos
de um casal apaixonado

ou em um brilho terceiro
se é plural o sujeito
o trabalho é inconclusivo
sem prejuízo da indagação
amátika é um sempre cuidar
um sem dormir amanhecer
amátika é a disciplina,
não do saber,
do querer


segunda-feira, junho 20, 2011

Pequeno cordel da távola redonda


Retenho uma espada toledana
de altura aproximadamente a minha
dois gumes, folha reta, perfurante
cravada sobre a copa do meu crânio
trespassada a cabeça até o foramen
seguindo em diretiva norte sul
do seio interno e oco da traquéia
e o tronco até o chão vazando o cu.

Se dói-me um puto o cravo da espada
do sangue que ela verte abdiquei
recuso alçar as mãos à empunhadura
e extirpar de mim o amado gládio
meu centro empalo à giratória Terra
e enterro se preciso até mais fundo
me prendo pelo pontiagudo eixo
que esse eu quero, e nenhum outro mundo.

Concedo sem piscar o olho entretanto
que um outro alguém o encanto me desfaça
ou a flor dos meus desejos para sempre
ou um rei bretão das lendas cavaleiras
ou qualquer um que sinta que o amor
cravado só em mim e em mais nada
transfere por magia ou leis de einstein
a dor que eu sentiria para a espada.

Remove então ó merlin do inferno
a lâmina da dor e da loucura
de dentro do meu corpo ensanguentado
liberta-me da comunhão terrena
e prometo que de então até o futuro
até a última excreção de mim saída
atravessou-me a última espada
amei a última vez na minha vida.

sábado, junho 18, 2011

romance de primeira linha



redonda lisa e esguia
o que se vê todo dia

entrado em ti geografia
o que se quer todo dia

novelo em si se desfia
o que se faz todo dia

anseia a dor e a alegria
o que se diz todo dia

torpor de após a folia
o que se dá todo dia

amor queimando de dia
o que se põe todo dia.

beleza em filosofia
o que se vê todo dia

ardor enchendo bacia
o que se quer todo dia

roçando a linha de guia
o que se faz todo dia

boca voraz faz magia
o que se diz todo dia

ouvir o som da alforria
o que se dá todo dia

sair da toca vazia
o que se põe todo dia

antes que acabe outro dia.  


sexta-feira, junho 17, 2011

Amiga



eu tento reta, reta, e sai torta, torta
eu tento em cima, cima, e sai baixo, baixo
eu tento o sol, ó sol, e sai a chuva, ó chuva
eu dou as costas pro vento
eu me a encontro
ela faz certo, certo, certo
ela não ama errado, errado
ela não vira do lado de baixo
ela lembra, lembra da chuva
ela meu bem escreve seu nome
e ela é cima quando é cima
e ela é baixo quando é baixo
e ela é frente quando é frente
e ela é verso quando é verso
e ela e eu desenhamos, amos, amos
e eu e ela construímos, imos, imos
e eu e ela enfeitamos, amos, amos
e eu e ela rimos, rimos, rimos
e eu e ela rolamos, rolamos
e voamos, voamos, voamos
e inseparamos
e ela sai torta e sai baixo e sai chuva
e nos molhamos
e é para sempre
e não para nunca
este presente


quarta-feira, junho 15, 2011

Amada




os nomes de todas as flores do mundo
estão impressos em um livro
de folha de pele de cabra
às margens
do guadalquivir

os nomes de todos os livros do mundo
estão gravados na pétala
de uma flor de albarraz
às margens
do guadalquivir

toda flor, todo livro e todo rio
todo odor, o saber e o fluir
deste mundo, o antigo e o porvir
estão guardados em meu amor
e é por Ela que eu quero existir

seu cabelo aspirar o perfume
saber-me bem em seu colo
e os seus olhos um leito de águas
torbellinas ou calmas que seja
me afogar e desnudo dormir

as 42 batalhas que eu
travei do nascente até hoje
não são flores, nem livros, nem nada
mas um rio e me vê renascer
às margens da minha (...)


domingo, junho 12, 2011

travessia




o sorriso e os olhos andam juntos
no rosto calmo do meu amor
o sorriso e os olhos andam
de mãos dadas
e travessam as praças
o sorriso e os olhos do meu amor

junto ao sorriso outros pequenos sorrisos
andam juntos de outros olhos
e de outros pequenos olhos
rostos tantos passeiam colados
ao sorriso e aos olhos do meu amor

meu sorriso e meus olhos se abrem
e acolhem alegres e iluminados
a luz encendida
a alegria estampada
no sorriso dos olhos
do meu amor

trifásico



eu resto de tudo, resto da vida e do furacão
o resto da vida do dia seguinte ao final
é final e é destruidora, é devastadora e é fortíssima
cada das três fases de cada forte furacão

e quais são as três fases do furacão?
e que fases mais há que as três de um furacão?
e quantos furacões de três fases haverá
pra três fases haver para cada furacão?

levanto do leito seco de leite
e sento-me, os pés no chão
quem visse um fio de vida a três
sonharia ter sido ali um furacão

e calo-me, que a voz não resta
e deito no lixo somente o que presta
sim, tem três fases, o furacão
contá-las, uma a uma, me basta:

o furacão tem três fases: a forte, a fortíssima e a devastadora
o furacão tem três fases: a devastadora, a destruidora e a final
o furacão tem três fases: a final, o dia seguinte e o resto da vida
o furacão tem três fases: o resto da vida, o que resta de tudo e eu 


caçadora



quando a carne, os olhos, os braços, a veste e a face 
matam a mim nesse mato
despido do medo
eu torno
irriquieto
quieto muito
que
não há mulher
nesse mundo
que tire
a vida assim
do avesso
de mim

eu só faço amar
por ela não nunca acabar
eu só faço amor
pra ela não nunca ter dor

quando a flecha, a ponta, a lança, a seta, a bala e a caça
cortam a mim nesse mato
vertido em vermelho
eu paro
e choro
choro muito
que
não há mulher
nesse mundo
que torne
o mundo meu
do avesso
como essa

eu só faço amor
pra ela não nunca ter dor
eu só faço amar
por ela não nunca acabar



sábado, junho 11, 2011

de todo modo




eu quero comer o mundo todo
eu não quero comer todo mundo
eu não quero o mundo todo querendo
eu mudar de lugar todo mundo

ela não é todo mundo
ela é meu mundo todo
eu todo querer e eu tudo mudar
depende do modo de quem quer me dar.