quinta-feira, abril 21, 2011

serenata solar

há dias estou aqui
debaixo da tua janela
debaixo da tua beleza
debaixo que estou
debaixo soo alto
debaixo da terra
tocando, cantando, chorando
i stand at your gate and the song that i sing is of sunlight

escuta, se não a mim, escuta o mundo
que esse toca, canta e chora também
deixa o som rotundo
que desentranha
de debaixo da terra
chegar-te aos ouvidos

cerra os olhos
se queres nada de bom
a não ser o som
limpo
como mandar um beijo
e chegar antes do teu batom

abre
escancaradas
tuas pernas janelas
e o som adentre
em trêmulo
ou estacato
fortíssimo

finge
fingimos
tu aí da varanda
eu aqui do meu chão
passear de mãos dadas na praça
passear de mãos dadas na rua
passear de mãos dadas
dar as mãos

mira as duas direções de onde o mundo
origina e destina o calor e a música
só o sol lá de cima atira flechas de fogo
eu e o chão aqui embaixo
ecoando-nos, ecoando-te
em baso profundo

e tu e tua janela ao meio onde
se propaga a grande onda

segunda-feira, abril 18, 2011

são só negócios

quisera eu (e eu quero) pudera eu (e não posso)


decompor o furacão num batalhão de outros ventos



quem dera eu negociar com você

meu muito agora

em muito tempo



eu triturar o amor tanto em carne sempre moída

dosar la mar do meu pranto em uma goteira comprida



quem dera eu negociar com você

meu muito agora

em muito tempo



cumprir a fauna eozóica eternamente em uma jia

fingir a flora amazônica em uma rosa por dia



quem dera eu negociar com você

meu muito agora

em muito tempo



quem dera eu negociar com você

meu muito agora

em muito tempo



meu muito agora

em muito tempo



em muito tempo

sábado, abril 16, 2011

semana santas


limpa os pés de jesus
lava
com o fogo do aroma  
ébrio
das flores cansadas
de dar

maria santa mulher
dona rainha e mãe
do vosso ventre jesus

amada plena madalena
mulher dama e irmã
da vida devida na cruz

lava teus pés ao meu zêlo,
ó maria
lava que estou a servir
verto a baba
de ponta-cabeça,
madalena

peco o amor viscoso, madalena
deixo o culpar desistir
seco nos meus cabelos, maria
tuas melosas madeixas

quanto mais rias, madalena
quanto mais penas, maria
quanto mais lenha, madalena
mais nosso amor, maria
em fogueira
de brujas
ardia

sexta-feira, abril 15, 2011

agora não, sempre sim


deus fez o mundo no agora
quando fez o mundo
e é doce a promessa do logo
se és deus não careces de um fim

é o prazer imediato
é comer e lavar o prato
é dizer e entender o ato
é imerso
é perto
e vívido
o agir convivido do agora
no calor impreciso da hora

também tenho tido
em amores passados
o ardor do não-esperar
de querer e de pronto provar
de sofrer
de esperar
de explodir
quando a corda que prende o desejo
arrebenta e recolhe o não-beijo

aprendo um amor distinto
exatamente
agora

é o amor do querer outra coisa
mais palpável que aqui exquisito
como fosse re-divino
não comer carne em semana santa
e passar hambriento
a primeira sexta feira da paixão

e passar saciado
o eterno retorno
da amada
e o ocaso
do não

quarta-feira, abril 13, 2011

soledade

soledade deu em saudade
na história longa
da língua galega

e hoje diz o seu revés
não é mais soledade
- a doída ausência que também és
mas é saudade llena, intensa
- a doída presença que também és

acho mesmo que amas
(eu mesmo te acho às vezes)
assíduos os dois na mesma
cidade

encho o coração ermo
solto o choro enviesado
enxugo o mar de dores
em si

sei dos demônios
todos de outro homem
dos seus enxames
amenos

mas,

saudade de mais
te echo de menos

quinta-feira, abril 07, 2011

o melhor lugar do mundo é aqui e amanhã


eu não sei o que acontece comigo
nem sei se é comigo que está acontecendo
nem mesmo se isso
está mesmo acontecendo
não é o mundo que muda?
não é a gente que muda o mundo?
não é o mundo que muda a gente de mundo?

ou fica o mundo parado
e a gente
tal como o trem na estação
sente o chão
e o mundo girar sob os pés
por qualquer razão?

mas importa mesmo saber
se isso acontece é comigo?
importa lá tanto saber
se comigo ou com o mundo acontece, ou
se afinal de contas,
de fato isso tudo acontece?

pois mesmo se acontecesse
- só comigo
mesmo se acontecesse
- só com o mundo
ou se nem com o um nem o outro
nem um pingo de mudança
houvesse a esperança mais vã

eu ainda estaria feliz

pois eu amo
e vou amar
a amada mulher da minha vida
no verdadeiro e ensolarado dia
de amanhã

sábado, abril 02, 2011

tou tão reiro


que venga
que venga
o amor com seus chifres
que eu espero
essa cabra
com a capa
em riste

eu planto
as tamancas
no solo da arena
estufo
meu pecho
e enfrencho
a contenda






o amor
o amor
anda luso e valente
e eu sou
mais bravo
trágica
mente

me mata
me mata
me enterra tus cornos
me hace
sangrar
és toura
sou gente

sexta-feira, fevereiro 25, 2011

A FANTÁSTICA AMEAÇA DO SIONISMO FEMININO BELO-HORIZONTINO QUE SÓ DUROU QUATRO ANOS

para Elena Costa

Vou contar, é claro, uma história de espionagem e romance. Espiávamos o quanto podíamos as nossas colegas judias da Escola Albert Einstein, na rua Pernambuco. A escola ainda funciona no prédio da União Israelita de Belo Horizonte e umas tantas vezes invadimos a biblioteca para roubar livros em hebraico. Um adolescente metido a intelectual rouba livros. Tudo bem. Mas roubar livros em hebraico é coisa de gente perturbada ao extremo, e nós éramos tudo isso.

Para confessar uma modéstia perdida, eu sempre desconfiei que não éramos nada daquilo, mas mudei de idéiaalguns meses, na comemoração dos 70 anos da escola. A exposição de fotos mostrava desde relíquias amareladas dos anos 30 (imaginem, do tempo da diáspora!), até as escaneadas do aqui-e-agora, mas nem uma lembrança do nosso período - de 1980 a 1983. Antecipando em um ano o tema do livro de Orwell, a Mossad suprimiu a memória de nossa guerrilha escolar. Éramos uns vitoriosos e não sabíamos! E não foi à toa. Aquela foi a época mais conturbada de toda a história da humanidade: o governo embalava o Pró-álcool e John Lennon, que era mais popular que Jesus Cristo, acabara de ser assassinado. O sonho - e a era das discotecas - acabou. Os tempos eram ao mesmo tempo anacrônicos e incongruentes: o Pirulito ficava na Savassi, lugar onde nunca esteve antes e jamais iria ficar novamente.

Nosso jeito de perverter tudo e todos era bem especial: pela absoluta falta de propósito embrulhada em engajamento visual. Como nossos pais diziam-se de esquerda, andávamos na escola e pela Praça da Liberdade afora com camisas vermelhas e uma foice e um martelo enormes e amarelos no peito. De 80 a 83, ninguém sabia o que fazer com isso: nossos avançados pais e professores não decidiam se isso era louvável, perigoso ou idiota. E a polícia ou achava bonito ou não ligava (quem, na época, havia contado alguma coisa sobre comunismo para um PM nos seus vinte e poucos anos?), e a UMES-BH - dominada por simpáticos stalinistas filhos de peemedebistas da Faculdade de Medicina - nem sabia que a gente existia. os quase-extintos fascistas, resquícios da Tradicional Família Mineira (hoje muito informatizada para merecer esse nome), eram a nossa salvação, brindando-nos com muita cara feia nos ônibus, no Parque Municipal, no Palácio das Artes, no Mercado Central. Éramos hedonistas, está claro: máxima culpa de Belo Horizonte e das judias do Einstein.

Um parágrafo para nossa colega, saudosíssima Elena. Alunos, professores e rabinos do colégio Theodor Herzl foram à nossa escola para um jogo de bola amistoso (judeu contra judeu é amistoso) e Elena comandou a festa. Sob sua liderança, estampamos em nossas camisetas um chocante “Beguin retzaeh” (Menahem Beguin: o líder israelense que comandou o massacre de Sabra e Shatila; retzaeh: provavelmente “assassinoem hebraico castiço - nunca conferimos a pertinência do termo). Amistosidade abalada, é óbvio, e nunca mais nossos irmãos co-sionistas voltaram a pisar no nosso lado de Gaza.

Hoje olho para minha cidade e nem consigo imaginar queapenas 25 anos Belo Horizonte era o epicentro de uma grande conspiração internacional. Como ficou o mundo depois disso? Uma de minhas filhas estuda no mesmo Einstein; os Estados Unidos continuam se achando donos do mundo; e meu deca-campeão América segue com os resultados de sempre. Até o Pirulito está onde sempre esteve, eterno na Praça Sete, como se sua temporada savassiana tivesse sido apagada da novolíngua belorizontina. E permanece suspirar por um Oriente de Médio pra melhor. Paz praqueles povos de nariz grande. Isso, sim, iria redimir nossa linda futilidade da Rua Pernambuco.


quarta-feira, janeiro 26, 2011

O sorriso do lagarto

O que digo ao longo deste texto me foi sugerido por duas cartas de leitor, publicadas no mesmo dia 18 de janeiro último, em O Tempo. Na primeira, o leitor se diz indignado com a TV Globo por conta de um final de novela eticamente incorreto. O leitor-telespectador  denuncia um “... efeito socialmente negativo, devido à força da emissora, ao mostrar a vitória do crime e do mal sobre o bem e a moral”. A segunda carta também trata de uma indignação moral manifesta: a leitora-telespectadora assiste chocada, na mesma Globo, a presidente Dilma e seus comandados esbanjando sorrisos em plena reunião ministerial (conta-nos a repórter em off) sobre as trágicas enchentes no Rio.

Desde o início gostei das duas cartas, assim lado a lado, pois elas são uma caricatura da troca de papéis entre os gêneros: o macho preocupado com o andamento da novela e a fêmea atenta ao noticiário nacional. Mas é preciso esquecer os gêneros pra atentar para a relação entre o público (qualquer público) e a televisão (qualquer divulgador massivo de entretenimento e opinião).  O telespectador 1, que como todos nós está acostumadíssimo à moral teatralizada (das tragédias de Ésquilo a Hollywood) sabe muito bem que novela é novela, que tudo é encenação. Mas se permite emocionar, e, após limpar as lágrimas, se dá conta que o teatro tem uma função social, que ali se passa uma “mensagem”, e tanto pior (daí sua indignação) se a tal mensagem não se ajusta aos melhores valores que o telespectador 1 julga reconhecer na própria sociedade.

O telespectador 2 também está acostumado à moral teatralizada. Também se emociona com o que assiste e comunga, com o telespectador 1, distinções semelhantes sobre o bem e o mal. No entanto, ao ser avisado que aquilo que assiste não é teatro, mas um relato factual das tragédias humanas, põe de lado tudo o que sabe sobre quem produziu o relato, sobre o responsável pela “mensagem” e se concentra no show em si mesmo. Dilma às gargalhadas enquanto discute a morte de centenas de pessoas. O telespectador 2 não precisa entender (e isso foi dito na matéria) que naquela reunião discutiram-se outros assuntos. Não precisa entender que imagens e sons podem e são editadas e que, naquele caso específico, imagens das risadas governamentais e a parte crucial da locução da repórter - a reunião sobre as enchentes - foram sincronizadas.

Em suma, ao contrário do “consciente” telespectador 1, apreciador e crítico das tragédias ficcionais, o telespectador 2 está magicamente encantado pelo espetáculo. Alienado, para usar uma palavra fora de moda. A indignação pela imagem do mal está ali presente, mas o mal em carne e osso continua a sorrir para o espectador, ou sorrir do espectador. E assim seguimos vivendo ao vivo essa outra criatura da ficção, o Grande Irmão vislumbrado por George Orwell e reprisado em nossas casas à noite, na telinha da Globo. Uma calamidade verdadeiramente pública.       

domingo, janeiro 02, 2011

Beatles, Assange e Ano Novo

Certos assuntos políticos são difíceis de desenroscar, pois chegam fantasiados até nós, sempre que nos falta espírito crítico ou sobra preguiça. Um meio de despolitização é a manipulação dos veículos de comunicação de massa, empurrados daqui e dali para disseminar gostos, opiniões e esperanças por nossa cultura afora. Tudo pode descer goela abaixo quando bem divulgado. Não é à toa que Vargas Llosa chamou os sertões de “fim do mundo”. Para esse sul-americano naturalizado europeu, qualquer lugar que se afasta do centro hegemônico é o fim do mundo. Dele, é claro. O Conselheiro foi tão mais sábio quanto desplugado do mundo de Vargas Llosa. Euclides da Cunha também.

Século passado, surge uma revolta contra a massificação, sob a bandeira da paz, do amor e todo o resto. O alvo era o consumismo e o anticomunismo histéricos, reforçados pela mídia no ocidente, inclusive no Brasil. Os Beatles, enlatados para consumo alienante, eram pessoas sintonizadas com a disposição rebelde de sua geração, e se posicionaram publicamente o quanto puderam (contra a guerra no Vietnã, por exemplo). Seu papel político foi espertamente distorcido, suscitando a desconfiança das esquerdas e, apesar da boa música, o apoio da indústria brega da diversão. O assassinato de Lennon, à beira das festas de fim de ano e alvorada dos anos 80, sofreu um trabalho de pasteurização da mensagem política, propagado em uníssono pela mídia: voltem pra casa que o sonho acabou. Essa contradição beatlemaníaca, qualidade política e estética vendida como latas de salsicha, era a tônica da contracultura versão anos 60, pois os revoltosos eram filhos adotivos (nem tão diferentes assim) do sistema contra o qual tentaram lutar.

E eis que renasce a oposição à politica manipuladora em massa. Agora, são os meios de comunicação que justificam fins mais promissores. Do uso restrito até o dia-a-dia dos adolescentes, a internet tornou-se um comunicador de longo alcance ao alcance de todos. O que acontece com as tecnologias (e conosco) depende do uso que se faz delas, mas a configuração da tecnologia também deve ser levada em conta. Se a “rede” de TV divulga a partir de um centro, na internet os nós da rede são bilhões de usuários, que em um momento ou outro irão interferir, individual ou coletivamente, na qualidade da mensagem distribuída pelo sistema. É como as conversas que mantemos uns com os outros há milhares de anos, tecendo a rede maior que chamamos de cultura.

Sim, há espaço para a hegemonia, para manipulação de mecanismos de busca e outros truques à disposição do poder instituído. Mas isso faz parte do jogo, mesmo na conversa interpessoal. O que muda é a força de propagação, que a comunicação distribuída em rede, confere a qualquer um: não apenas a governos, grupos econômicos e veículos de comunicação mas a mim, a você ou a Julian Assange. Estamos voltando aos tempos em que fazíamos, todos, a cultura. 

Publicado em O Tempo, 31/12/10

quarta-feira, dezembro 22, 2010

Cat people


Na sala de espera somente nós dois.
Escolho o canto esquerdo junto ao banheiro feminino.
Na parede oposta lê Veja uma mulher.
- Esconde Veja a beleza do rosto. 

Pernas cruzadas, bota preta.
Perfeito joelho, notei, a saia é curta e xadrez.
Giro os olhos, cruzo o joelho e a Veja.
- Gata em pele de gente na capa. 

Natassja Kinski abaixa a Veja.
Verdizolhos nos verdizolhos de Natassja.
Vertiginosamente constrangedores.
- Nada abala a Srta. Kinski. 

Diretos e duros e doces os dois.
Grudadozolhos nos meus e os meus nem se fala nos dela.
Ganha a tensão dimensões de grito abafado.
Deixo o limite e a libido à cavalo.

Vou de texano de esporas sangrentas?
Dou de parisiense desistencialista do amor sem pecado?
Vidiando a tez de Natassja Kinski? Obrigado: 
- Divago no claustro doutor em que estamos. 

Nele me estanco prostrado entre garras.
No espaço eterno eu e a penumbra, a gata e a Veja.
Na espreita, a pantera. Goza a verdade do drama:
- Nuvem se esgueira por meu pensamento. 

Pesavam em Natassja problemas legais?
Eu digo: Sabe a Srta. Kinski ler português?
Ela: I beg your pardon? O advogado:
- Pode entrar Sra. Monteiro.

sexta-feira, novembro 26, 2010

Quando o amor acaba: o natural e o desumano no humano

O belo-horizontino Paulo Mendes Campos (hoje nome de pracinha carioca junto à rua Humberto de Campos, no Leblon) escreveu uma bela crônica lírica sobre o amor: "O amor acaba". Mas o Paulo, sendo o Paulo, cheio de ternura, mas moleque, irrequieto, não ficaria satisfeito em louvar o amor piegas, ou chorar o amor perdido. O texto instiga leitora e leitor a percorrerem situações e lugares em que o amor desaparece, mas também ressurge, muda de jeito, de nome, muda até de amor. Diz o final da crônica-poema: "por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba".

Mas que amor é esse, tão disposto a acabar? Amor não é para sempre (ao menos enquanto dure, como ensina outro poeta)? Penso que, nesse poema, amor é algo mais fundamental que o amor romântico (ou mesmo parental) que tanto valorizamos, até o ponto de banalização, nos libretos de ópera, nas novelas e nos bailões sertanejos. Essa nossa mania de tornar o amor sublime, cheio de mistérios, dificulta aceitar que amar é mais corriqueiro (e, por isso, mais importante) para nós, humanos, assim como, acredito, para outros seres vivos. Toda criança cresce cuidada por um membro mais velho do grupo. Cuidar da criança acende o amor do adulto e joga a criança em um mundo em que é natural ser amada e, daí, amar. Somos assim, e ficamos doentes se não amamos.

As manifestações de preconceito ativista, de pregação política do não-amor a alguns grupos da sociedade, nos ensinam a ficar desnecessariamente doentes. As últimas eleições foram pródigas nessa matéria. Ódio aos pobres, analfabetos, índios, negros, a grave questão de saúde pública - o aborto - rebaixada a disputa de rancores morais.

Eleitores descontentes com as urnas demonizaram os nordestinos, imaginando um Brasil dividido entre uma atrasada e iletrada zona vermelha ao Norte, e uma próspera e ilustrada zona azul ao Sul. Os números desmentem essa bobagem, mas, mesmo se fosse verdade, que doença é essa que nos faz desamar ativamente quem vive ou pensa diferente de nós? Sempre há um exemplo que supera a mais desvairada imaginação. A Universidade Mackenzie, de São Paulo, quer agora ter o direito de "ser homofóbica". Entendido? A instituição, responsável pela educação de sei lá quantos mancebos, quer não apenas desamar os homossexuais (que isso é direito de qualquer um), mas pregar o desamor, um desamar militante, digamos. Tal como o adulto, a escola tem um papel cuidador em relação às crianças e jovens. Aqui, só consigo ver doença e, o que é pior, doença ensinada.

Se a ciência ajuda numa hora dessas, cito o biólogo chileno Humberto Maturana, que explica o amor como uma emoção fundadora do domínio social. Ele diz: "O amor é a emoção que constitui o domínio de condutas em que se dá a operacionalidade da aceitação do outro como legítimo outro na convivência, e é esse modo de convivência que conotamos quando falamos do social". Não é? Acho até que o amor romântico - que cultivam entre si homem e mulher, ou, como não sabe a universidade paulistana, outras combinações de gênero - é alma gêmea do amar como fundamento do social. Mesmo quando o amor acaba. Eu mesmo vivo neste momento uma desilusão amorosa das mais perturbadoras em minha vida, e isso, do amor acabar, não me turva o desejo de amar. Pois nós, humanos (e outros seres vivos, acredito), somos assim. Naturalmente aptos para amar e acabar de amar, a cada minuto.


Publicado em O Tempo, 20/11/10 - Ilustração: Duke

terça-feira, novembro 23, 2010

Fraco

há uma vantagem em ser fraco
que só descobri em setembro
partir-se em milhares de membros
e escolher juntar os cacos



fraco é som ouvido no escuro
fraca é a brisa suave
deslizando sobre o corpo
e o fraco goza (eu juro!)

fraqueza fugaz momentânea
fraqueza ao acordar de manhã
fraqueza no corpo e na alma
fraqueza é a força mais insana



uma vantagem adicional
(de ser fraco, bem entendido)
é viver impaciente
impulsivo e visceral 

da víscera tomamos ciência, 
nos é caro cada impulso, 
e se o coração não bombeia 
então haja paciência! 



fraco pra não resistir
fraco sem poder desistir
o fraco é o oposto do morto
por ti
por ti
por ti


Belo Horizonte, outubro de 2010

domingo, outubro 17, 2010

No ar o blog do Pedro

Está no ar o blog do companheiro lingüista Pedro Perini, Gramaticalmente crônico. O texto "Ecologia de Inclusão" sobre as políticas e vivências das habilidades e desabilidades é (entre muitos outros textos) um brinco.

"A recente adesão do Brasil à Convenção Internacional sobre os Direitos de Pessoas com Deficiência é um fato histórico relevante. Uma vez signatário deste documento, o país ingressa em um grupo de países que assumem diante da ONU (Organização das Nações Unidas) o compromisso político de levar adiante práticas já em curso e desenvolver pesquisas, programas e políticas para tornar viável às pessoas que tenham alguma deficiência o exercício e o gozo do lazer, do trabalho, da família, da política e das individualidades de cada cidadão, sem discriminação de cor, credo ou corpo...".

Confira o texto completo no original: http://pedroperini.wordpress.com/2010/10/12/ecologia-de-inclusao/#comment-20

sexta-feira, agosto 27, 2010

É de graça, é na praça, e é livre

Dia 12 de setembro, domingo, na Praça da Liberdade em Belo Horizonte, acontece o 8º ano do Livro de Graça na Praça - LGP 2010, com distribuição gratuita do livro Contos de Tradições, com 18 autores, de livros infantis pela Aletria, e de cordéis.

O LGP 2010 faz parte do calendário de eventos de Belo Horizonte e conta com a participação do Clube do Livro, IBC, SENAC, SESC, Corpo de Bombeiros, PMMG, Mazza Editora, Copasa e Belotur.

Domingo de sol (espero!) e livro de graça pra criançada e pra marmanjada.