sábado, maio 29, 2010

Umbigodumundo

Num passado distante Oduduwa saiu do orum - o além-mundo - pra fundar uma cidade aqui no aiê, o espaço do humano e outros seres viventes. Mas nada de novo sob o sol, a não ser reduplicações do que era. Cada um de nós no aiê tem seu duplo no orum: Barack Obama não teve 70 milhões de votos, mas o dobro disso, somados os terrenos e os votos do além. E então fui eu fazer a mesma viagem oduduwense (apesar d’eu mesmo não ter poderes divinos a não ser o de preencher formulários corretamente e lograr uma posição em uma universidade nigeriana). Da darcysica Brasilândia pro umbigo do mundo, a cidade de Ilê-Ifé. Todo brasileiro, criado ao embalo de iemanjás, xangôs, oxuns e iansãs soprados no ouvido, tem motivo de sobra para considerar esta terra com o devido respeito. Mas como ensinam os iorubanos, Ifé é mais que isso, é o próprio nascedouro do humano. 

Berço da humanidade” virou lugar-comum para a África. Este continente produziu tantas diásporas fundadoras - umas das mais recentes fez da Bahia e de Havana ultramares iorubás - que o termo “afrodescendente”, no rigor da história, não discrimina nada, pois nos nomeia a todos. Na Brancolândia, evolucionistas das mais diversas furta-cores ideológicas contorceram-se em suas teorias e, por mais que não gostassem (isso nem é racismo, é algo mais fundamental: medo do escuro), as origens, quaisquer origens quando o assunto é o bicho-homem, inevitavelmente transcaem na África. O velho Darwin tinha matado a charada, sem nunca ter visto um fóssil humano africano: se nossos parentes mais próximos - gorilas e chimpanzés - vivem na África, eis um lugar incomum para uma origem comum. E, de fato, desde a profecia odu-darwiniana, nada demasiadamente humano com mais de 2 milhões de anos foi, até hoje, desenterrado fora da África. Nada, nada, nada, Blitz dixit.  

Contudo, um tio-avô mais recente do humano, o Homo erectus, foi, sim, encontrado em outras plagas, e um evolucionista pretofóbico dos anos 60 veio com essa: “a África pode ter sido o jardim-de-infância, mas a escola que fez do humano, humano, foi o grande continente Eurasiano”. Os orixás não deixaram em branco. Um santo baixou no meu britânico amigo Chris Stringer, e ele mostrou, com todos os ossos e genes, que a talescola eurasiana” não deixou aluno vivo pra contar a história. Há mais de 100 mil anos surge uma nova espécie no planeta África que iria migrar para todo o globo, das mais remotas ilhas do Pacífico sul aos fjords escandinavos e igarapés transamazônicos: o Homo sapiens. Isso quer dizer, preto no preto, que cada um de nós é profunda, exclusiva e originalmente africano. A teoria de Stringer ficou conhecida como “Out of Africa”, e hojenome a uma loja de souvenirs no aeroporto de Jonhanesburgo. 

Mas estou divagarando. Voltando ao assunto deste artigo, e em respeito ao titulo, devo explicar por que o lugar em que estou é, de fato, o umbigo do mundo, ou do aiê. Um dos achados interessantes da origem africana da humanidade é que, analisando dois indicadores genéticos de linhagem exclusivamente feminina ou masculinarespectivamente, as mitocôndrias e o cromossomo Y – chegou-se ao lugar e à época aproximados em que viveram uma “Eva” e um “Adão”, ou seja, a mãe e o pai de toda a humanidade viva. Isso não quer dizer que esses foram os primeiros humanos, mas que eles, dentre seus muitos contemporâneos, deixaram descendentes entre nós, hoje (também não quer dizer que o casal dividiu a mesma choupana: linhagens materna e paterna seguem percursos distintos). Então, leitora ou leitor, quando você disser “mama África”, pense na venerável propriedade desse termo: as mitocôndrias que trabalham no interior das suas células são tatatataranetas das organelas que, há mais de 100 mil anos, viveram nas células de uma respeitável matrona africana. Se você for mulher, seus filhos vão herdar esse legado, mas se for varão... 

chegamos a Adão e (espero!) no umbigo do artigo. Quem leu a Bíblia com atenção, ou estudou a história das preocupações teológicas, deve ter notado um problema deveras seríssimo com que se depararam os intérpretes das escrituras. Adão tinha umbigo? Caso particularmente grave pros artistas incumbidos de ilustrar as passagens sacras. Decidiu-se, por fim, que sim, o primeiro macho tinha umbigo, e por um motivo preciso: Deus não criou apenas o mundo, criou também sua história. Ao dar um umbigo a Adão (aliás, também a Eva, igualmente desprovida de uma mamãe), o Artífice de Tudo empresta às origens a mesma dignidade estética, e, portanto, legitimidade, do desenrolar dos eventos. 

Por isso a cidade de onde escrevo essas palavras, Ilê-Ifé, é, com todo direito divino e pagão, a morada umbilical do universo. Os céticos (e, não, os Celtas, que eram muito devotos) podem argumentar que Oduduwa é um personagem histórico do século 11 (em uma Ifé habitada há milhares de anos), mistificado pelo povo iorubano como pai-fundador. Mas mesmo os rigores da evidência científica concordam que, se não foram os próprios habitantes de Ifé os paladinos da aventura humana ex-Africa, muita coisa aconteceu no próprio continente, como o surgimento de vários povos a partir de uma região coincidente com a Iorubalândia (os bantus, por exemplo, que se espalharam por todo o centro e sul africano). Sendo assim, sejamos simétricos, como nos ensina a novíssima antropologia pós-moderna, e aceitemos a sapiência judaico-cristã, que teologicamente coloca um umbigo numa barriguinha biologicamente lisa, e aceitemos a sabedoria iorubana, que coloca um duplo no orum para cada ente do aiê. A humanidade surgiu aqui, na cidade sagrada de Ilê-Ifé, um início fecundo de precedentes, tornando nossas origens ainda mais originais.

Publicado no Cometa Itabirano novembro/2008 

sábado, maio 01, 2010

Boa correlação, má explicação


Devíamos repetir a seguinte frase como um mantra, antes do café-da-manhã: não há categorias na natureza. No entanto, categorias são cruciais para falarmos sobre essa natureza, ou, como disse um filósofo austríaco de nome impronunciável, “do que se não pode falar, é melhor calar-se”. Aprendemos muito cedo significados particulares de “mulher” e “homem”, e vivemos a vida às voltas com essas distinções. É a partir dessas categorias que negociamos e modificamos seus significados. Ainda que tal negociação faça parte do dia-a-dia, falar de categorias como construção social continua irritando muita gente, como se isso fizesse toda e qualquer diferença entre “mulher” e “homem” desmanchar no ar. Não faz, eu garanto (tenho duas filhas, e a minha namorada, até onde eu saiba, é uma fêmea legítima).

Pelo que entendo de nossa biologia, e, por outro lado, da história da sociedade industrial, a mulher sempre esteve no mercado de trabalho. Uma regularidade do modo de vida humano é o investimento de ambos os progenitores na sobrevida da prole, e, para além da família, a participação de todos os membros da comunidade na sobrevida do grupo. Isso nunca quis dizer que uma classe de membros (os de ancas largas) tem de ficar em casa fazendo a janta, e a outra (de barbas longas), sair pra caçar ou fazer seja lá o que for. Ao falarmos na correlação entre “consumo”, “mercado de trabalho” e “mulher”, não há dúvida de que cada categoria dessas só faz sentido no contexto das atuais relações econômicas e de outras facetas das relações humanas, como a construção da noção de “outro”.

Tanto os menininhos quanto as menininhas de nossa sociedade tendem a construir a mulher como um “outro”. Um exemplo batido, mas que merece ser repisado pela clareza, são os hiper-consumidos filmes Disney. Eles nos ensinam a viver as relações de consumo em sintonia com a distinção, não só da mulher, mas de “árabes”, “índios” e “latinos”, como alteridades, seres diferentões, de idiotizados a malévolos. Não é preciso ser mulher para sofrer esse processo de estranhamento com algo que, pelas categorias aprendidas, deveríamos nos identificar. Nós, brasileiros, vivemos isso em O Rei Leão. Além do estabelecimento do masculino como a única fonte concedida de poder, ali os nobres leões rugem com acento britânico, enquanto as depravadas hienas cacarejam com o sotaque suburbano de negros e latinos (idéia que roubei de Henry Giroux). Quem acha que a reprodução desse modelo em nada afeta o modo de nossas crianças construírem suas categorias, deve ter assistido, como eu mesmo, a filmes Disney demais!

Dá-se um processo semelhante ao discutirmos o impacto da “mulher trabalhando fora” nas relações familiares, e então inferir - como é objeto deste debate - um papel causal da correlação observada entre a inserção econômica da mulher e um “consumismo”. Tem algo errado aí. Consumismo - a aquisição de bens em escala maior que os ditames da subsistência - é uma demanda dos donos da produção, ávidos por desovar seus artigos a qualquer custo, desde que não seja o próprio. Inicialmente, “mulher trabalhando fora” (insisto em colocar isso entre aspas: pensem nos arrozais do Vietnam!) é uma necessidade de recrutamento de mão-de-obra. Barata, é claro, pois esse recrutamento é feito diretamente em uma sociedade patriarcal que configura - assim nos ensinam Simba e Nala - a mulher como cidadão de segunda classe. Em um segundo momento, não passou despercebido que esse novo trabalhador é também consumidor, com necessidades próprias e específicas, uma diversidade sempre bem-vinda no perspicaz mundo dos negócios.

De onde vem a idéia da “mulher, a consumista”? Não de um histórico poder econômico, pois, como todos sabemos (e a maioria dos patrões, além de saber, pratica), mulher ganha menos, nada mais sendo variável. Para entender, passamos dos leões à loiríssima Barbie. Ao comprar uma Barbie, a menininha leva de brinde (dessa vez roubei a idéia de Shirley Steinberg e Bernadete Mourão): a) um modelo de beleza; b) um modelo de consumo adequado ao feminino (futilidade e alienação); e c), o mais importante, a cultura da não-produção e da submissão. Brinquei de Falcon quando garoto, com o mesmíssimo resultado ideológico do não-brincar-de-Barbie: homens fazem, mulheres consomem. É notável como isso é contrário à experiência da maioria de nós, homens, de mulheres trabalhando duro à nossa volta, a vida inteira!

No mínimo, a categoria “mulher, a consumista” é resultado da sociedade patriarcal de consumo. No máximo, o caminho causal inverso é uma boa correlação, dificilmente uma explicação, e de modo algum uma boa explicação.

* Publicado em O Tempo, 15/01/06, no debate: “A inserção da mulher no mercado de trabalho está relacionada ao aumento do consumismo?”

quarta-feira, abril 14, 2010

LANÇAMENTO: A LINGUAGEM DOS ANIMAIS...


Lançamento do livro A linguagem dos animais & outros escritos. Quinta, 29 de abril às 19 horas, na Quixote Livraria e Café. O livro reúne 40 artigos de Beto Vianna publicados nos jornais O Tempo e O Cometa Itabirano entre agosto de 2002 e novembro de 2009, um com a participação de Alexandre Pimentel. Ilustrações de Tá Morelo e prefácio de Mario Drumond.

BAIXE o convite AQUI

Informações: www.biolinguagem.com/livros.html

Ficha
título: A linguagem dos animais e outros escritos
autor: Beto Vianna
ilustração: Tá Morelo
editora: Mazza Edições
ano: 2010
no. páginas: 184 pp
preço no lançamento: R$25

 

sexta-feira, abril 02, 2010

Dual de bravos - parte II


Harris consegue enfim alçar à sua clause na colina. Dolorido e líquido de sangue, tomasello uma interjeição de morfofonêmica e um flex para apassivar a dor. Faminto e conceito, bérbere um tokpisin de leite com mangamorre, e num período composto em seu acento, começa a devanagari sobre a relevância do seu situacional. Sapir que dali pra frente estaria marcado enquantum Lee Queen Stick fosse vivo, e teria que aglutinar todo o seu pensamento, linguagem e problemas de conhecimento para retornar a uma derivação não-marcada. Não podia desafiar seu algoritmo para um dual, pois isso seria de uma idioletice hiperbólica. Consoante a comparativa superioridade de Lee no gatilho, teria de operar uma mudança paramétrica de modo racionalista, mas com tantas variantes, como desfazer a ambigüidade?

Desperta então uma idéia furiosa, que resolveria infinitivamente a dicotomia. Depois de muito maturana, Harris forma lista dos mais temidos bandidos do entorno de Bloom Field e, ali mesmo pelo alofone, contrata-os como aux. Estrutura a lista com parcimônia minimalista, reunindo os piores tipos e tokens de módulo a não deixar chance ou necessity para Lee. “Qualia sujeito”, pensa satemsfeito Harris, “ágora terá coragem de ficar de grice comigo?" 

Cuneiforme Lee internalizava em seus espaços mentais a própria vinneyança, decide tomasello precauções isomórficas às de Harris. Dedutivo à não competência dos cidadãos anglo-germânicos no manejo das armas, busca ajuda externalista: segue para o periférico Hallidey, um goethe de ex-eslavos crioulos. Os crioulos eram conhecidos universalmente por falar uma protolinguagem particular, pelo trabalho de campo em um terreno gramático às margens do lakoff Saint-Georges, e o cuidadoso tratamento dos dados envenenados. Como bons kristangs, os crioulos logos concordam em patuá com o caubopp. Infelizmente, o sistema Lee Queen Stick não seria funcionalista, pois o que Lee não sapir é que seu próprio cavalli-sforza - o falsete Clever Hans - era formante de Harris (Clever Hans era parentético de Ferdinand, o que explica, mas não justifica, sua deslealdade). Sendo burrhus falante, o hippônimo não tardou a decodificar para seu factual mestre todo o esquema conceitual do acoplamento de Lee com os crioulos.

Munido da informação e reunido o superestrato de marginais, Harris inicia a operação sintática em Bloom Field. À sua word order, ora são intercalados seus criptotipos por todas as skinners da cidade, ora o bantu é preposicionado de forma a não dar indiciais de sua presença. Os sujeitos ocultos preparavam-se para embosquímano Lee e os crioulos, quando, bem no ponto de articulação, Harris não consegue reprimir seu language instinct e exprime, fonológico: “Mãos ao alton, babecker, você está cercado, pro-drop sua....”. Lee ouviu o sonoro clique da Winchgenstein de Harris, que armava-se para meter fogo e outras coisas perigosas em nosso herói, mas este foi mais gerativo. Falantes que se ouvisse o complemento verbal de Harris, ele contra-altaica. Dispara léxico sua Labov e... schleicher! Mit uma bala derrideira bem no núcleo coracional do bandido, que gíria abruptamente e stammbau na choms, jafético. Harris estava extinto.

Seus comparsing, sentindo-se total mente e corpo não-significantes diante do poder de fogo de Lee e das outras coisas perigosas dos crioulos, fogem, assindéticos.

Estava o corpus extended no grounding, o sinotibetano sonando a dobra phonebre, e Gina, não-sensível ao cadavram, corre pra abraçar o amado. Ofertando a bocadela ao órgão da linguagem do velho caubopp, a bela müller saussure, langacker: “Benja mim, Lee amorf, benja mim!”. Consensual, Lee Queen Stick entrega-se ao romanço com Antropoula Gina, e como o amor é uma viagem, os corpora logos mesclam-se em cópula. Fim da História. Glottal stop

O Cometa Itabirano, abril de 2006

Dual de bravos - parte I


Estamos em 1916. Lee “Queen” Stick era assim alcunhado na mesóclise pois quando pequeno sofria de indefinição de gênero, apesar do trato vocal bastante longo. Fodor no gatilho, vivia na pacata iconicidade de Bloom Field, Arizona, com a sua müller, uma imigrante helenística de onomos Antropoula Gina. Lee e Gina eram donos de um circo, cuja martinet - com divertidas representações de bonobos mestrados, engolidores de fogo e outras coisas perigosas - era o único referente de lazer da cidade, anafora o x-bar “Lácio de Couro”, que vendia cognac falseável.  

Como toda müller, fogo e outras coisas perigosas, Gina era uma fonte de preocupações para o possessivo Lee, pois, além de muito boas, tinha a péssema mania de andar simbolando indexentemente por Bloom Field com uma estilística sumária e um par mínimo de tecidos ocludindo as partes do discurso. Conhecendo a fama explosiva de Lee, poucos caubopps atreviam-se a dar mais que uma superficial semiótica na classe aberta de Gina, por mais motivacional que fosse o observar da sua forma lógica.

Zellig “Cactus” Harris era um pistoleiro temido, cujo maior traço semântico era a crueldade, e o maior predicativo, uma escopoeta Winchgenstein idiomática. Era, em abstract, um homem sem princípios nem parâmetros, um verdadeiro crátilo que vivia atormentando os cidadãos de Bloom Field. De origem indo e européia (filhólogo de uma corretora de seguros athabaska e um judeu ucraniano), Harris desprezava os emergentes mandarins da América e invejava o círculo de regências e ligações de Lee, que c-comandava Bloom Field. Aquele era um período clítico para a aquisição de um recorte dos negócios no velho oaustin. uns poucos seriam hegemônicos, com dominância direta sobre os verbos de subvenção. “A bolsa ou a vidaera o rhema daqueles tempos pouco sophisticados, e Harris era um prototípico pragmatista, para quem vale o que está sanscrito se for cientificamente interessante: se for kosher.

Um belo diacrítico, Harris entra na cidade montado em seu cavalli-sforza, o fiel Ferdinand. À porta do Lácio de Couro, o bandido vocaliza com toda a sua grave acústica: “Lee, quero fazer um tractatus contigo. Estou volitivo a ser teu sócio Lee Queen Stick! 2ª.p.s. não te arrependerás!” Lee não precisou analisar muito o discurso de Harris para assimilar o que estava subjacente à sua estrutura profunda. Lee conhecia aquele papiamento furado e não iria cair na sua rede neural. Sapir que Harris era um falso amigo, cuja única intencionalidade era ver o circo pegar fogo e outras coisas perigosas. O caubopp sai pra foley do x-bar e redunda, irônico: “Como vão indo as res, comrada Harris? Vejo que não desistiu de sinalizar com a mão pro meu negócio. Por que não entra e joga uma partida a valência comigo? Aposto uma garrafa de vodkativa como não me vence” Harris, um viciado sincrônico no jogo do pinker, não resiste ao apelativo à sua natureza e cultura. O relativismo de Lee Queen Stick deixa os presentes sem língua nem fala, e todos ficam na interrogativa: não seria arbitrário Lee interagir com tal reciprocidade com esse sujeito negativo, que vem à cidade causar fusão?

Mas Lee não estava sendo literal. Aproveitando-se dos variacionais jargões de vodkativa Trubetskoy aspirados pelo bandido, rumbaugh no jogo descaradamente, superando a competência instintiva de Harris no pinker. Abusou da performance com as cartesianas até deixar Harris sem um vestígio na bolsa. Harris sai cambaleante e arruinado do x-bar, conotando o Circo Lee Queen Stick das pragas mais superlativas, comportamento verbal capaz de fazer calão os insultos mais baixos! O vilão estava total mente e corpo tranformacional pela combinatória da raiva e os efeitos da vodkativa, babblando de ódio, como se corporificado pela peste ebônica ou empírico por uma overdose de lexicotan.

Ao perceptual Gina transitiva pela rua, Harris abre um sorriso sintagmático, determinista a vinneyarde-se de Lee. Em um impulso de criatividade infinita, o fascinoxímora tira a hopi, colocando seu diagrama em árvore pra foley e deixando Gina afásica. Harris premissa o cano da Winchgenstein na rosetta da pobre müller e ídiche sibilante em seu ovídio: “Dá-me um beijo ágora, ou temático”. Gina, não-opcional, bilabia o bandido. Nesse exato momento, Lee sai do x-bar. Observador dos dois ali encaixados, fricativos com suas línguas em contato, o caubopp fica furiosamente verde de incólera. Gina tenta explicar-se, implosiva: “Lee, meu amor! Noam o que você está pensando! Oh, meu Dêitico, que tragédia!”.

Mas Lee, surdo e oclusivo de ciúmes, não é capaz de escutar chomsky nenhuma. Volta metafórico para o Lácio de Couro, pidgindo ao x-barman sua antiga Labov lacano duplo. Na davidson, o comerciante achou zamenhof manter o bickerton fechado e entregar o instrumento dialetal ao herói. Zwicky the Kyd, que ostentava o distintivo de xefirth da cidade, tenta dissuadí-lo: “Sem port-royal e o registro da arma, Lee, tenho que lhe dar voz de aprendizagem”. Mas toda súplica era categoria vazia. Lee mira na direção de Harris e ouve-se o clique da Labov engatilhando, toda a cidade tense, em atenção conjunta esperanto o pior. Harris cura-se do fogo diante das outras coisas perigosas que o contexto apresentava e, saltando sobre o fiel Ferdinand, dispara a gallup, indo árico para a clause. Era tarde. As balas se metáfora dos tubos, seguindo um objeto direto para o umbro de Harris. bem longe, supino no desfiladeiro, Harris, ferido, ainda tem a capacidade inata de ouvir o ato ilocucionário de Lee: “Você não vai fazer de Bloom Field uma cidade sem lei de grimm, seu verner! akabson com você!”

segunda-feira, março 22, 2010

Vida de cachorro: clones e indivíduos


Meu melhor amigo foi Zorro, um cachorro preto da raça dachshund. Como quase todos do seu tipo, Zorro tinha aquela carinha mascarada, contrastando o rosto heróico com pernas ridiculamente curtas. E como aconteceu com várias raças de cães ao longo dos seus 15 mil anos de convivência com os humanos, o dachshund surgiu com um propósito: esgueirar-se, com sua forma de salsicha, pela toca estreita do animal caçado, que bem podia ser uma raposa - daí “zorro”, na nossa irmã língua espanhola.

Além da conformação física, dizemos que também o comportamento canino segue prescrições de raça. Há uma demanda social contra o “uso” de pitbulls, rotweillers e outras feras, do mesmo modo que se proíbe o porte de armas e as pipas com cerol. Mas a consciência popular tem argumentos contra o determinismo. Assim como não falamos de diferenças raciais humanas (ao menos publicamente, e em tempos de correção política), criadores de cães lembram-nos que a conduta do cachorro reflete as vicissitudes de seu adestramento, e não o imperativo genético. Ou seja, a relação do homem com o melhor amigo do homem é mais um capítulo dessa antiga novela, o debate entre natureza e cultura. 


No dia 4 de agosto de 2005, a novela canina ganhou contornos de minissérie, da história da linhagem ao episódio de uma só geração. Cientistas coreanos anunciaram na revista Nature o primeiro cachorro clonado, cujo nome é uma jóia de adequação e bom-humor: “Snuppy”, acrônimo de Seoul National University Puppy (cãozinho, em inglês). A partir do material genético de um galgo afegão, o Snuppy embrionário foi implantado em uma cadela da raça labrador. O filhote é cara e focinho da matriz genética, e não lembra nem de longe sua nutriz materna. Que lições podemos tirar dessas semelhanças e diferenças? Infelizmente quase nenhuma, se o que estamos querendo é saber antecipadamente o final da novela. 


Espero que um parágrafo explicativo não desanime leigos nem irrite especialistas. Clonagem é a fusão do núcleo de uma célula somática (da pele, por exemplo) com uma célula-ovo cujo núcleo foi removido, e sua implantação em um organismo receptor, a “mãe de aluguel”. Como o DNA está no núcleo, dizemos que a informação genética vem do doador, e o papel do ovo anucleado ou do receptor seria secundário. Ainda que essa interpretação esteja correta (e não está), ela reflete um dos maiores preconceitos do pensamento ocidental desde Aristóteles: que a mãe é apenas o repositório da verdadeira chama vital, e, a tal chama, uma prerrogativa masculina. Ao enfatizar a contribuição igual de ambos os genitores em organismos de reprodução sexuada, a genética desarmou esse chauvinismo, mas reteve uma de suas premissas: o DNA contém as instruções de montagem e o resto do maquinário segue as instruções. Como um clone tem o mesmo DNA do indivíduo doador, deveríamos esperar que o organismo resultante fosse uma cópia idêntica. Mas é isso mesmo o que acontece?


O problema é que a biologia de qualquer organismo, desde as mais elementares interações dentro da célula até a construção da personalidade (ou caninidade), é realizada a cada momento no percurso do desenvolvimento. Elefantezinhos continuam parecendo-se com elefantes, e elefantes não nascem de formigas, mas a história biológica de cada elefante e de cada formiga individual é única. Um cão “naturalmente mau” pode continuar a ser chamado assim (e colocado, junto com seu dono, em uma coleira), sem que isso implique determinação genética ou que sua condição seja imutável. Até defeitos genéticos são reversíveis, como sabe todo mundo que usa óculos, e problemas de educação podem ser persistentes, como tem demonstrado uma parte de nossa classe política e empresarial.

Snuppy não foi o primeiro mamífero clonado. A lista inclui ratos, cavalos, coelhos, o segundo melhor amigo do homem - o gato - e a pioneira ovelha Dolly. Dolly, a rigor, nem pode ser chamada de clone. É uma “quimera”, pois recebeu material genético tanto do doador quanto da célula-ovo (sim, também há DNA fora do núcleo). Quanto ao gato, a imprensa científica não escondeu sua surpresa ao descobrir que o clone possuía um padrão de pelagem distinto de seu doador genético. Mas isso só deve nos surpreender se continuarmos a ver o organismo como o resultado de instruções escritas previamente a ferro e fogo no genoma. Ao compararmos a história individual de Snuppy com a de outros organismos clonados, vemos que as técnicas precisam ser diferentes e os resultados também não são iguais. Isso porque tanto as linhagens (as ovelhas, os cães), quantos os indivíduos (Dolly, Snuppy), exprimem uma tensão permanente na história de todo objeto vivo: a tensão entre a conservação e a mudança. Sem a conservação, não podemos sequer falar de linhagens históricas. Sem a variação, não ficaríamos tão maravilhados com as regularidades observadas, e os cientistas teriam bem menos o que fazer. Não há teoria científica possível sem um mundo de irregularidades desconcertantes.


publicado em O Tempo, 19/08/05